Produtores do Guia NY para Mãos-de-Vaca mostram como empreender na Internet


Filósofo, escritor e blogueiro, o autor do “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Guia Roma para mãos-de-vaca“, Henry Alfred Bugalho, é um personagem que se destaca no mundo da Internet. Há dois anos ele já havia contribuído com o blog Jornalismo Freelance por meio da entrevista “Filósofo reflete sobre publicações na Internet“. Recentemente, ele foi um dos entrevistados pelo G1 para um ciclo de matérias relacionadas à Bienal do Livro – Rio, que rendeu a reportagem “Vendi 5 mil livros sem passar por livraria, diz autor de guia de NY“. Agora, ele volta a falar ao blog Jornalismo Freelance e, desta vez, aborda assuntos como, literatura, faturamento por meio de blogs e outros meios de sobrevivência alternativos.

Confira, ainda – no box publicado no decorrer dessa entrevista -, um diálogo com Denise Nappi, a co-autora do “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, que dá dicas para estudantes sobre como pensar e viver para além dos muros da faculdade.

Naldo Gomes: Há quanto tempo você está trabalhando como blogueiro? Você já teve empregos com carteira assinada?

Henry Alfred Bugalho:

Vivendo exclusivamente da escrita há pouco mais de um ano. Antes disto era uma renda extra ao trabalho que eu fazia em Nova York. Só tive um trabalho com carteira assinada por três meses, trabalhando numa grande livraria de Curitiba. Fazia quase dois anos que eu esperava para ser convocado por um concurso público para professor de Filosofia, mas a grana apertou, arrumamos nossas trouxas e fomos embora do Brasil, ou seja, bye-bye concurso público!

Desconfio um pouco do rótulo de “blogueiro”, pois para mim o blog é apenas uma mídia como qualquer outra, como a TV, o jornal, o livro, a revista ou a rádio. Sou um escritor que, por força das circunstâncias, encontrei o meu público, o reconhecimento e a subsistência através de blogs, mas poderia ter sido por outra mídia também se as portas se abrissem mais facilmente aos produtores culturais em início de carreira.

Naldo: Que blogs são esses para os quais você escreve? Todos eles foram criados por você?

Henry:

O mais conhecido dos meus blogs é “Viagens para Mãos de Vaca“, no qual eu e minha esposa abordamos viagens econômicas, com dicas de gastronomia, compras, passeios, hospedagem em Nova York e em vários outros destinos do mundo. Há também o “Cala a boca e clica!“, um blog de fotografia que pretende desmistificar várias técnicas e conceitos para tirar fotos melhores. Sou o editor e colaborador da Revista SAMIZDAT, uma revista literária digital que reúne uma vintena de talentosíssimos autores brasileiros e portugueses, e também o criador da Oficina Editora que publica digitalmente alguns dos meus romances e antologias de contos com outros autores. Durante vários anos mantenho “O Crítico“, e este foi o meu primeiro blog, com resenhas sobre cinema, literatura, ou qualquer outra coisa envolvendo o mundo da arte que eu pense ser interessante falar. Além disto, escrevo o “Blog do Escritor“, com dicas para escritores iniciantes, artigos e cursos de escrita criativa; o “Viola na Sacola“, com histórias curiosas das minhas viagens; o blog “Miríades“, com meus contos, microcontos e crônicas; por fim, “O Covil dos Inocentes“, um blog onde publiquei um romance noir online, com alguns capítulos todas as semanas, interagindo com os leitores e, vez ou outra, publico alguns contos com o detetive que protagonizou o romance.

Além disto, mais recentemente, criei um blog pessoal, que serve para agregar todos estes conteúdos dispersos, publicar minhas fotos e reunir a minha bibliografia, Henry Alfred Bugalho, que é uma plataforma mais dinâmica e interativa.

Todos foram criados por mim, apesar de o maosdevaca.com ser um trabalho conjunto com minha esposa, e a Revista SAMIZDAT ser uma publicação colaborativa com vários outros autores.

Os 10 blogs de Bugalho

Os 10 blogs de Bugalho

Naldo: Mais adiante vou perguntar mais sobre a sua veia literária que ainda não foi reconhecida. Mas, por enquanto, gostaria de saber de onde – exatamente – provém a sua renda. Como se ganha dinheiro com esses blogs?

Henry:

Antes de tudo, é preciso ter consciência que não é tão fácil ganhar dinheiro com blogs como se imagina. Muita gente pensa que criará um blog hoje e amanhã largará o emprego para viver somente disto. A maioria dos blogs não dura nem três meses: as pessoas criam um blog e quando percebem que ninguém está lendo e que não está ganhando um centavo sequer, elas o abandonam. Para começar a ganhar uns trocados, é necessário paciência e dedicação. Demora meses, talvez anos para se ter algum resultado…

Minha renda vem de duas frentes: 1 – a venda dos meus livros através do blog, tanto na versão impressa quanto na versão digital, e 2 – com anunciantes (no meu caso, Adsense, do google).

Tanto a venda dos livros quanto o ganho com anunciantes dependem diretamente do número de visitantes nos blogs, quanto mais gente acessar, mais livros venderei e mais cliques nos anúncios terei. É simples assim. Por isto, precisamos investir boa parte do nosso tempo, além de produzir conteúdo de qualidade, em atrair o público e criar um relacionamento com os nossos leitores, através das redes sociais, microblogging e e-mail.

Mas existem várias outras maneiras para se ganhar dinheiro com blogs além destas duas.

Naldo: Você fala em “investir boa parte do tempo”. Quanto tempo é isso? Quanto tempo você investe atualmente, agora que vive apenas disto? E lá no início – quando iniciou seu primeiro blog “O Crítico” – quanto tempo você investia? Você trabalha aos domingos?

Henry:

Este relacionamento com os leitores acabou se tornando uma incumbência da minha esposa [Denise Nappi – Leia entrevista no box à direita], já que é um talento natural dela. Assim eu posso me dedicar mais a escrever, pesquisar e produzir os conteúdos, ou seja, dividindo estas funções facilita o nosso trabalho.

Mas podemos dizer que passamos o dia inteiro, 7 dias por semana, de alguma maneira em função dos nossos blogs. Mesmo que não seja um trabalho que exija atenção tempo integral, estamos sempre respondendo e-mails, comentários no blog, no Facebook, na comunidade do orkut, no twitter, e por aí vai. São as intermitências dos blogs.

A exceção é quando estamos viajando, pois são períodos em que estamos coletando material, então eu não escrevo nada, só tiro fotos, anoto o que fizemos e as informações básicas. Deixo para escrever tudo quando retorno para casa.

Já “O Crítico” dava trabalho e poucos resultados. Eu assistia uma média de 5 filmes por semanas para resenhar para o blog, escrevia para o site Adorocinema e alguns outros sites de cinema, recebia um monte de patadas nos comentários (pois ninguém quer ver o filme que gosta ser detonado) e não ganhava nada por isto.

Ainda continuo recebendo patadas, mas também não dedico muita atenção para as resenhas, principalmente porque nem tenho tido tanto tempo nem interesse para ir ao cinema atualmente. Afinal de contas, todo mundo se acha expert em cinema e literatura, foi o que descobri.

Naldo: Parece que os blogs e a arte de escrever também têm lhe conduzido para muitas viagens.

Henry:

O maosdevaca.com nos permitiu reunir algo que já gostávamos de fazer, viajar, com aquilo que sempre aspirei fazer, viver de escrita.

Desde que começamos a viver exclusivamente da renda do blog, já falamos, além de Nova York, de Buenos Aires (onde estamos no momento), do Chile, do Peru, do Brasil, da Espanha, da França e ainda falaremos da Itália e do Uruguai.

Já para o ano que vem, como estamos nos mudando para a Europa, ficará muito mais fácil viajar economicamente por lá e abordar outros destinos. O fato é que tudo é mais caro quando partimos da América Latina…

E todas as nossas viagens foram custeadas apenas com o que ganhamos no blog, não recebemos patrocínio, cortesias, passagens aéreas de ninguém. A única exceção recente foi uma viagem que fiz para Taiwan paga pelo governo taiwanês para promover o país, mas foi completamente diferente do que costumamos fazer, pois eu me hospedei na casa de locais e acabei por fazer uma programação bastante alternativa, visitando pontos que nem são de tanto interesse turístico. Foi interessante, mas diferente.

Enquanto que gostaríamos de ter uma boca livre em nossas viagens, também prezamos a nossa independência de poder falar mal ou bem, pois pagamos do nosso próprio bolso por isto.

Naldo: Talvez essa seja a grande sacada: transformar uma coisa que você gosta muito de fazer em um trabalho lucrativo, aproveitando o potencial da Internet e das novas tecnologias. Mas, voltando à questão da literatura, você e a Denise tem um livro que é bastante “cultuado”, mas me parece que você, particularmente, gostaria de se sobressair mais com seus livros de literatura que, ainda não tiveram uma audiência tão grande quanto o livro Nova York para Mãos-de-Vaca.

Henry:

Eu não consigo pensar em outra possibilidade: ou você faz aquilo que gosta, ou não faça! Simplesmente não entendo a lógica de muita gente que trabalha a vida inteira num emprego que não lhe agrada para, quem sabe um dia, quando se aposentar, aproveitar para fazer o que gosta.

A vida é curta demais para desperdiçarmos com os sonhos alheios.

É óbvio que não tínhamos como prever o sucesso do guia de viagens e, como detesto qualquer tipo de rótulos, também não me interessa ser conhecido como escritor de viagens. Sou um escritor, e ponto-final. Acidentalmente, meu trabalho com um blog de viagens fez muito mais sucesso do que qualquer outro em qualquer outra área de escrita, e certamente muito mais do que em ficção.

Mas não me iludo, sei que a estrada da Literatura é longa e que ainda tenho muito caminho pela frente. Tenho consciência que tudo que fiz até agora em outras áreas, como meus romances, contos e a Revista SAMIZDAT, são uma preparação para obras muito melhores e talvez, em algum momento, elas possam chegar a um público maior.

Também não posso negar que percebo a fase que a Literatura está passando, as profundas transformações no mercado e que será cada vez mais difícil se consolidar e ganhar algum dinheiro com Literatura.

Nos EUA, hoje, muitos teóricos apontam um número mágico de 18 meses para o fim do livro impresso. Isto significará o fim do mercado literário como nós o conhecemos, muitos agentes literários deixarão de atuar, muitas cabeças vão rolar e muita gente auto-publicada começará a brilhar, o que era raridade alguns anos atrás.

Quando isto chegará ao Brasil? Não deve demorar, mas para um país onde o mercado literário nunca foi aquecido de fato, os autores continuarão mendigando migalhas como sempre foi.

O que sempre digo é que precisamos encontrar meios alternativos para ganhar dinheiro com a escrita, seja através de anúncios, seja vendendo livros digitais, seja leiloando um personagem do livro para os leitores (como fez o Stephen King), sei lá! Existem possibilidades.

Naldo: Você falou diversas vezes durante essa entrevista, que existem meios alternativos para faturar com a escrita, além dos blogs. Que meios seriam esses?

Henry:

Além da publicidade, existe a opção de vender produtos através do blog, seja seus livros, como eu faço, seja qualquer outra coisa: camisetas, canecas, bordados, artesanato, bijuterias, isto é, fazer do seu blog uma espécie de loja virtual.

Outra possibilidade é preparar conteúdo exclusivo (premium) para assinantes, como já fazem boa parte dos grandes jornais e revista. Há as notícias gratuitas no site, mas se você quiser acesso ao conteúdo do jornal ou da revista impressa, tem de ser assinante.

Uma prática comum nos EUA, mas quase inexistente no Brasil, é de doação dos leitores. Você inclui um botão de doação no seu site e os seus leitores fiéis, para incentivar seu trabalho, fazem doações periódicas.

Além disto, o blog pode servir também como uma vitrine do seu trabalho e, a partir dele, conseguir novos trabalhos, convites para palestras e seminários, parcerias com outros sites maiores, e assim por diante.

Devem existir outras alternativas, mas estas são as que funcionam melhor até o momento.

Naldo: O “botão de doação” é ótimo. Acho que vou colocar um no meu blog. Mas voltando à questão da literatura, você me contava – nos bastidores dessa entrevista – que um livro seu foi publicado pela Universidade de São Paulo (USP) sem que você soubesse disso. Como é essa história? Ela já se resolveu?

Henry:

O meu primeiro romance, “O Canto do Peregrino”, bateu na trave da publicação algumas vezes. Na primeira delas, era para ter sido publicado por uma coleção de 6 livros em comemoração do sesquicentenário da emancipação política do Paraná, mas, destes 6 livros, apenas 1 foi publicado (alguém deve ter embolsado o restante da verba…).

Depois, este mesmo romance foi selecionado para ser publicado pela Com-Arte, a editora-laboratório do curso de Editoração da USP, onde assinei um contrato com todas as formalidades em 2004, e nunca mais ouvi falar deles.

Agora, em 2011, descobri que o livro já havia sido publicado em 2005, e ninguém me avisou nem nunca vi um exemplar sequer na minha frente.

Certamente não foi nenhum best-seller da VEJA, senão eu saberia…

Ainda não resolvi isto, principalmente porque não consigo contatar os responsáveis pela publicação.

É insólito, mas é verdade.

Naldo: E olha que essa não foi a única vez na qual você teve algum tipo de prejuízo com livros. Numa matéria recente veiculada pelo G1 e intitulada como “Vendi 5 mil livros sem passar por livrarias, diz autor de guia de NY“, você falava sobre a pirataria do PDF em relação ao seu guia. Aliás, outra coisa que impressiona nessa matéria, é o fato de você ter vendido tantos livros sem a legitimação de uma editora. Impressionam também os números que você, em 2009, divulgou na entrevista “Filósofo reflete sobre publicações na Internet” publicada no blog Jornalismo Freelance, no qual você dizia que, até aquele momento, 200 mil pessoas no Mundo já haviam chegado aos seus textos. Você poderia atualizar esses números? Já chegou a 6 mil livros vendidos? Você ainda conta quantas pessoas já o leram na Internet ou parou de contabilizar?

Henry:

A pirataria é um grande problema por uma razão somente: como fazemos para sobreviver com literatura se a renda do escritor só vem dos livros?

Enquanto não encontrarmos possibilidades para substituirmos satisfatoriamente a venda de livros, muitos escritores sofrerão com isto.

Ainda não chegamos aos 6 mil, mas chegaremos em breve. Aliás, esta nem é uma grande preocupação para a gente, pois, pelo fato de sermos independentes, ganhamos com 100 livros o que um autor publicado por uma editora ganha com mil. Isto é, por não passarmos por livrarias, perdemos no volume, mas lucramos no valor unitário do livro.

No entanto, vamos lançar em breve o guia de Buenos Aires e um outro livro de fotografia, ou seja, ao ampliarmos o nosso catálogo, também aumentaremos o nosso rendimento.

Já não contabilizo estes dados tão minuciosamente, mas sabemos que hoje mais de 2 milhões de pessoas já passaram por todos os meus blogs, livros digitais, revistas e textos publicados pela Internet.

É muito mais do que eu poderia imaginar.

Naldo: De acordo com estas informações você teve um acréscimo de 1000% na sua audiência nesses últimos dois anos. Então, para fecharmos nossa entrevista eu gostaria que, com base nos dados citados na sua resposta anterior, você avaliasse a sua trajetória – junto com a Denise – até aqui. O que vocês conseguiram até aqui é satisfatório ou você esperava mais? E por fim, quais são os seus projetos futuros? O que você espera alcançar daqui para frente?

Henry:

Pensando percentualmente é bastante, pena que os rendimentos não cresçam nesta mesma proporção! (risos).

Sinceramente, não temos do que reclamar. Eu passei de um autor completamente desconhecido e, em quatro anos, pude viver exclusivamente da escrita, vendendo uns bons milhares de livros, criando um fantástico grupo de leitores e sendo reconhecido pela imprensa, tudo isto graças aos blogs.

Há autores com décadas de carreira literária que não conseguem isto, inclusive alguns bastante conhecidos.

Acho que sempre soube que, no Brasil, não-ficção traria resultados mais rápidos do que com ficção, mas não desisto: continuo escrevendo os meus romances, distribuindo-os gratuitamente e atraindo alguns poucos curiosos. É certo que eu gostaria de também ser reconhecido como ficcionista, que é a maior parte do meu trabalho, mas nada mais resta senão dar um passo a cada dia.

Os meus projetos futuros são:

– publicar em breve o guia “Buenos Aires para Mãos-de-Vaca”;

– publicar um livro de introdução à fotografia do “Cala a Boca e Clica!”;

– concluir dois romances que estão em andamento e uma antologia de contos de terror;

– atrair o maior número possível de leitores para a Revista SAMIZDAT, que está de volta com força total.

E continuar nesta trilha. Ninguém disse que seria fácil!

Naldo: Henry, terminamos aqui nossa entrevista que, achei muito esclarecedora. Tenho certeza que os leitores do blog Jornalismo Freelance vão gostar bastante da sua experiência e da experiência da Denise e de todas as suas dicas. Eu desejo aos dois, bons ventos nesse mar da Internet e também fora dele. Termino com um verso de Navegar é Preciso, de Fernando Pessoa: “Viver não é necessario; o que é necessario é criar”.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

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