Após 119 anos de existência, Jornal do Brasil deixa de ser impresso


Fundado em 1891, o Jornal do Brasil (JB) é um dos mais antigos periódicos nacionais. Durante muito tempo foi trabalho e escola para inúmeros jornalistas, diagramadores e fotojornalistas, sem falar nos prestadores de serviços autônomos, nos profissionais do jornalismo freelance e terceirizados.

O JB será 100% digital a partir de setembro de 2010. Mas em seus 119 anos na versão impressa foi local de trabalho e de estudo de centenas de jornalistas, fotojornalistas e diagramadores, além de profissionais autônomos como os que se dedicam ao jornalismo freelance. Foto: oglobo.globo.com
O JB será 100% digital a partir de setembro de 2010. Mas em seus 119 anos na versão impressa foi local de trabalho e de estudo de centenas de jornalistas, fotojornalistas e diagramadores, além de profissionais autônomos como os que se dedicam ao jornalismo freelance. Foto: oglobo.globo.com

O JB foi, também, pioneiro em, pelo menos, três fatores:

  1. Interior das páginas: primeiro a eliminar os fios que separavam as colunas;
  2. Internacional: participação de correspondentes estrangeiros;
  3. Internet: primeiro jornal brasileiro a se tornar online.

Mas a partir do dia 1º de setembro de 2010, o JB deixará de circular em sua versão impressa. Dessa forma, o jornal assume, mais uma vez, uma posição vanguardista ao se tornar o primeiro 100% digital do Brasil.

Controvérsias

Alguns jornalistas que trabalharam no JB não se conformam com aquilo que denominam a “decadência” e com a alegação de que o periódico está inovando ao eliminar a versão impressa para trabalhar apenas com a versão digital. Leia abaixo algumas dessas opiniões controversas, publicada na revista “Negócios da Comunicação”, na reportagem intitulada “O triste fim de um centenário”  que colocam a culpa na má administração:

“O JB entrou em coma ainda com Nascimento Brito, na direção administrativa como representante de sua mulher, Leda, proprietária da empresa e co-responsável pela decadência do jornal.”

Jânio de Freitas, ex-editor geral.

“Em 1986, assumi a sucursal de São Paulo. Os problemas financeiros já eram conhecidos. Entretanto, não admitiam que não havia dinheiro para renovar o aluguel de meio andar na avenida Paulista. Qual foi a solução? Alugar um andar inteiro, claro, na avenida Paulista.”
 
Augusto Nunes, ex-chefe da sucursal em São Paulo, identificando a má administração nos gastos excessivos.

“Nenhum jornal morre de uma hora para outra. Infelizmente não foi nenhuma surpresa, a situação era muito difícil e mais do que cantada.”

Ricardo Noblat, ex-chefe da sucursal em Brasília.

O principal argumento do JB é o vanguardismo

No dia 22 de agosto de 2010, o JB se defendeu dessas e de outras críticas ao divulgar uma lista com 50 tópicos que explicam os motivos da posição tomada pelo dono do jornal, Nelson Tanure. A seguir, você poderá ler a síntese desses argumentos:

  • Vanguardismo: primeiro jornal 100% digital do Brasil;
  • Pesquisas: o JB convidou leitores para opinarem sobre as plataformas digitais e obteve um retorno positivo com relação à mudança;
  • Sustentabilidade: a impressão do jornal causa um enorme impacto ecológico e econômico por conta da utilização da celulose;
  • Futuro: os leitores de amanhã são leitores digitais;

  • Audiência: a atenção dos leitores está cada dia mais focada no ambiente digital. Na Europa, os leitores de jornais impressos não passam mais do que 20 minutos por dia lendo um exemplar;
  • Passado: em pouco tempo o uso do papel será considerado retrógrado e, além de tudo, um desrespeito à natureza;
  • Mensagem: o jornal é a mensagem e não a mídia;
  • Interação: o ambiente digital confere interação entre o jornal e os leitores e com isso, proporciona um elo de confiança entre eles;
  • Rede: a redação não é mais um ambiente confinado, mas uma rede de cérebros conectados, muitas vezes, por muitos quilômetros de distância;
  • Compatibilidade: o JB promete compatibilidade com todos os leitores digitais: iPad, Kindle, Alfa, Nook, Mix, Libre e computadores comuns;
  • Impressão: qualquer parte do jornal ou todo ele poderá ser impresso pelo leitor em sua empresa ou residência se ele assim o desejar;
  • Barateamento: o custo mensal do JB digital será de apenas R$9,90;
  • Internacional: o JB lançará uma versão digital em outras línguas para ser vendido em outros países;
  • Parcerias: O JB promete, ainda, buscar parcerias que ajudem os leitores a adquirirem um leitor digital.

Arquivando o passado

O JB tem arquivado fisicamente e digitalmente a maioria dos exemplares desde a sua fundação na década de 1890. Esse arquivo digital está disponível online, graças a uma parceria com o Google Archives. Para acessar clique aqui.

Veja abaixo um vídeo publicado no YouTube por “bibliotecno”, que demonstra o funcionamento do arquivo histórico do JB:

Já o arquivo físico do JB, o Centro de Pesquisa e Documentação (CPDoc) que carrega o bordão “A memória vida do Jornal do Brasil”, está localizado no Rio de Janeiro, numa sala com temperatura e umidade controladas. Os exemplares do jornal estão arquivados de acordo com os padrões atuais de biblioteconomia.

Sobre jornais impressos e jornais online

A polêmica entre o fim ou não do jornalismo impresso já havia sido tratada num artigo publicado em março de 2010 aqui no Blog Jornalismo Freelance, intitulado “O novo jornalismo e o jornalismo freelance“. Não obstante, segue abaixo a opinião do jornalista e autor do livro “O Destino do Jornal”, Lourival Sant’Anna, publicada em reportagem já citada, na revista “Negócios da Comunicação”:

“Os jornais impressos tendem a dar lugar aos jornais online. A Internet é um canal de distribuição muito mais barato, rápido, eficiente e ecologicamente correto do que o impresso. Mas esse será um longo processo.”

“Para a atual geração de leitores de jornal, a tela é ofuscante e incômoda. Para a próxima, o papel é opaco e desestimulante. Ela está neurologicamente ajustada para o brilho e o estímulo de computadores, celulares, tablets e do que mais surgir. Concomitantemente, o modelo de negócios precisa evoluir, seja para o pagamento de assinaturas na internet, seja para a verba de publicidade online. As duas coisas vão acontecer. É questão de tempo”.

Lourival Sant’Anna

Por enquanto, os jornais brasileiros estão com um pé no impresso e outro no digital. Mas dependendo da experiência a ser realizada pelo JB, o cenário poderá mudar.

Comente esse post no campo “Deixe uma resposta” localizado logo abaixo. Sua opinião sobre esse assunto é muito bem vinda. Fica a pergunta: Você trocaria a leitura do jornal impresso pela leitura num leitor digital?

Anúncios

Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

2 Responses to Após 119 anos de existência, Jornal do Brasil deixa de ser impresso

  1. Francisco Marques Teixeira says:

    Do limão (jornal impresso com dívidas acumuladas) o JB poderá fazer uma gostosa limonada (JB on-line).
    Mas tudo dependerá do profissionalismo da equipe.
    Com a edição digital muda o perfil do leitor (mais novo) e assim mudam também as estratégias do marketing digital.
    Com muito trabalho e ténica o JB poderá voltar a ser um jornal de vanguarda e ocupar o seu lugar na liderança dos jornais.
    Com muito trabalho pela frente!

    • Naldo says:

      Francisco, muito obrigado por deixar sua opinião nesse espaço. Também acredito que o JB tem potencial para conquistar o mercado digital e se tornar o jornal dos leitores do futuro.

      Grande abraço e boa sorte!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: