Pós-produtora do filme Cassiopeia é entrevistada pelo blog Jornalismo Freelance


A entrevista abaixo é parte de trabalho produzido para a disciplina de Técnicas de Reportagem do curso de Jornalismo da UniSant’Anna.
________________________________________

Para quem não lembra, Cassiopeia, lançado em 1996, foi um filme produzido totalmente por meio de antigos computadores 486 e o software de animação denominado Topas Animator. Seu concorrente, o Toy Story (1995), da Disney, utilizou bonecos de argila como forma de captação de imagens e movimentos. Nesse sentido, há uma polêmica que ecoa até hoje entre essas duas produções.

Porém, o brasileiríssimo Cassiopeia que contou com apenas sete animadores em sua equipe, contra 110 de Toy Story, foi um filme pioneiro. Mas seu diretor, Clovis Vieira, e seu produtor, Nello de Rossi, precisaram trabalhar arduamente, durante quatro anos, para que o projeto saísse do papel. É dessa história que trata a entrevista a seguir, com a filha de Nello de Rossi e pós-produtora de Cassiopeia, Patrícia de Rossi.

Jornalismo Freelance: Qual a sua formação e a sua experiência com filmes?

Patrícia de Rossi: Venho de uma família que tem um pai que é cineasta. Então, na verdade, toda a minha experiência é baseada na prática e não tive nenhuma escolaridade nesse sentido. Antes de entrar na área de edição trabalhei com o meu irmão, Marc de Rossi, que é um pós-produtor profissional.

Patrícia mostra um quadro que compara Cassiopeia e Toy Story. Foto: Naldo Gomes

Patrícia mostra um quadro que compara Cassiopeia e Toy Story. Foto: Naldo Gomes

 

Participei de vários momentos da produtora NDR Filmes. Lá eu trabalhava com documentários institucionais e filmes curta-metragem, entre outros.

E como assistente do meu irmão eu aprendi diretamente da fonte, até chegar o momento de editar Cassiopeia.

Jornalismo Freelance: Como você percebeu o contexto histórico da época, o momento político. Você tinha a ideia da importância e do impacto que o filme Cassiopeia poderia causar?


Patrícia: Com certeza, ainda não existia nenhum equipamento digital no Brasil para poder fazer um desenho animado. O nosso equipamento foi adquirido nos Estados Unidos. A digitalização foi feita lá e quando o filme ficou pronto foi uma odisseia prepará-lo para poder ser digitalizado. E como não podíamos fazê-lo aqui, nós tínhamos que fotografar cada quadro do filme inteiro para poder deixar esse material gravado em CDs e posteriormente podermos enviar aos Estados Unidos para que eles pudessem digitalizar.

Era uma época difícil em que a tecnologia não estava disponível aqui no Brasil. Mas nós tivemos um suporte muito grande das produtoras dos Estados Unidos. Fizemos a proposta de que o custo da digitalização seria abatido no momento em que o filme começasse a ser distribuído. Mas nós não tínhamos leis de incentivo.

Jornalismo Freelance: E a Lei Rouanet?
Patrícia: Acho que essa era uma lei para audiovisual, mas era muito complexa ainda e as próprias pessoas que lidavam com o cinema não sabiam lidar com ela.

 

 

 

Mesmo por que ficava muito difícil entender como leis de incentivo à cultura pudessem funcionar baseadas numa porcentagem de declaração de imposto de renda quando o Brasil era considerado um grande sonegador, assim como o resto do mundo. Mas o Brasil tinha a sua facção bastante poderosa nessa área.

Acho que melhorou muito essa coisa de entender que essa porcentagem é para a cultura. Mas no começo houve muita vazão desse dinheiro em benefício da pessoa que o emprestava.

Mas com certeza, nós tivemos outros apoios como o Instituto Latino Americano. De lá esse dinheiro saiu muito mais rápido do que por meio de incentivos. Nós descartamos os incentivos.

Também tivemos investidores privados que contribuíram com o Cassiopeia.

Jornalismo Freelance: Então, vocês tinham um desenho animado que depois começaram a digitalizar nos Estados Unidos?

Patrícia: O final foi digitalizado lá. Mas em primeiro lugar tudo foi desenhado. Tínhamos sete desenhistas e quando essa etapa ficou pronta, enviamos um trechinho digitalizado de dois minutos para a Crystal Graphics, que é a empresa dona do software que utilizamos, o Topas Animator, que era um dinossauro.

Quando a diretora da Crystal Graphics viu o que nós fizemos com aquele software nos mandou uma carta: “A única coisa que eu posso dizer é uau! Do que é que vocês precisam?”.

Jornalismo Freelance: E você participou da pós-produção, como foi isso?
Patrícia: Nós fizemos um trabalho com muito carinho, com muita dedicação, com muito profissionalismo, até que esbarramos nos problemas de quem iria distribuir, de quem iria investir. Porque para as distribuidoras é sempre mais seguro distribuir filmes com os quais elas sabem que vão ter um retorno.

 

 

 

Cassiopeia tinha um trunfo muito precioso porque era o primeiro desenho animado totalmente digitalizado. Mas faltou alguma coisa dentro do interesse ou da coragem de chegar e saber o que se tinha nas mãos, e saber a repercussão mundial que aquilo poderia dar. Estar no topo, ser o primeiro a lançar um filme de digitalização gráfica em longa-metragem, animado.

Tanto que a Disney já estava de olho na gente.

Jornalismo Freelance: Como eles ficaram sabendo que vocês estavam produzindo um filme inteiro com a utilização de computação gráfica?
Patrícia: Isso é muito fácil. Há pessoas que na América do Sul, na Argentina, no Brasil, que ficaram sabendo dessas novidades de boca em boca. A Disney sabia que nós estávamos prestes a lançar, mas essa empresa gosta sempre de tocar o gongo primeiro.

 

 

 

Nós desconfiamos, mas eu não tenho absolutamente provas nenhuma, de que sofremos uma sabotagem. Invadiram nossa produtora e acabaram tirando algumas HDs dos nossos computadores. Felizmente, nós já havíamos gravado nossas coisas em DVD e guardamos numa caixa trancada a sete chaves, fora da produtora. Mas foi uma coisa que nos atrasou e era isso o que eles queriam.

Então, Toy Story pode ter ganhado o lançamento de Cassiopeia, mas Cassiopeia foi o primeiro a ser produzido totalmente em computador. Não foi utilizado nenhum modelo externo e esse título ninguém tira.

Jornalismo Freelance: O filme final tem 80 minutos. Mas qual era o total de horas que vocês tinham para lapidar?
Patrícia: Talvez 240 minutos, 300 minutos. Era aproximadamente isso.

 

 

 

Jornalismo Freelance: Você poderia enumerar algumas inovações que o Cassiopeia trouxe para o cinema brasileiro?
Patrícia: Eu acho que o programa que a gente usou ficou obsoleto muito rápido. Eu penso que houve um avanço muito grande no setor de digitalização. O “muro” gráfico abriu-se para novas ideias, histórias, desenhos, todos maravilhosos.

 

 

 

Nós estamos chegando, eu acredito, ao clímax do software 3D. Isso veio dessas primeiras produções e progrediu e chegou até aqui. Chegamos a por os óculos para enxergar esses novos desenhos gráficos.

Tecnicamente, essa resposta não está à altura se nós formos falar de pixels, de rapidez. O cinema também se tornou mais rápido. A pós-produção, a edição, são todos maquinários, equipamentos, totalmente diferentes. Naturalmente, tudo evoluiu. Tudo se tornou muito mais moderno.

Jornalismo Freelance: Vocês se tornaram uma referência na área em termos profissionais? Outros profissionais procuraram vocês em busca de suporte, treinamento, coisas do tipo?
Patrícia: Não necessariamente. Acho que isso é uma coisa que se pode pesquisar para saber. O tipo de equipamento, o tipo de pessoas que se precisa e quantas, como o projeto vai ser realizado.

 

 

 

Talvez uma curiosidade, mas eram pouquíssimas pessoas que estavam interadas nisso. E quem queria saber acabava pesquisando na internet. Cada um tem a sua experiência nesse campo.

Jornalismo Freelance: Foi fácil colocar esse filme nas salas de cinema do Brasil?
Patrícia: Muito difícil. Nós negociamos a distribuição com a Play Arte. Só que a Play Arte não cuidou com carinho e não entendeu nada daquilo que tinha na mão. 

 

 

Acho que eles preferiam trabalhar com filmes que sabiam que iriam vender. Mas única coisa que a Play Arte faz é veicular. Ela entra nos cinemas e passa o trabalho já pronto, mastigado e feito. Ela só repassa isso, distribui.

Normalmente, a distribuidora acaba aceitando um trabalho de uma equipe desconhecida. Mas um filme como o Cassiopeia que pode ser uma novidade, acaba sendo uma incógnita em termos de bilheteria. Aí a distribuidora negocia uma via que fica muito a favor dela.

A Play Arte não te garante uma distribuição internacional. E nós queríamos que fosse, primeiramente, internacional. Para ela poder ter um retorno e para nós podermos ressarcir todas as pessoas que trabalharam. Nós não queríamos que a Play Arte distribuísse dentro das condições que ela estava oferecendo. E queríamos fazer uma negociação mais apurada, mais bem feita, em outro momento.

Jornalismo Freelance: Houve uma tentativa de fazer o Cassiopeia II?

Patrícia: Sim, mas não conseguimos. Sentamos, conversamos, mas acho que o Cassiopeia é só um episódio.

Jornalismo Freelance: Valeu à pena fazer Cassiopeia?

Patrícia: Com certeza! Foi um trabalho de quatro anos entre idealizar e realizar. Foi uma experiência muito diferente e agregou muito conteúdo em todos os profissionais.

Meu pai sempre falava que o desenho animado é um dos melhores investimentos porque ele não expira. Não tem data de validade, de não apreciá-lo mais.

Você pega gerações e gerações de crianças que veem, que curtem, que olham, e que pode dizer: “Esse é brasileiro! Esse foi a NDR quem fez aqui no Brasil”.

Jornalismo Freelance: Há alguma coisa que eu não perguntei e que você gostaria de falar?
Patrícia: Eu gostaria de poder dizer que seria muito bom se as companhias e as distribuidoras se unissem mais para poder formar um trabalho de rede. Assim, você termina o seu filme e coloca em processo de distribuição de uma maneira mais enérgica, mais dinâmica, mais sólida. Porque é muito difícil poder levar a arte ao ponto final que, é o público.

 

 

 

Nós fizemos uma produção de quatro anos e isso foi um caminho árduo a ponto de pensarmos cinquenta vezes se gostaríamos de fazer de novo. Isso não é para ser assim. Hoje, tudo é muito burocrático. Não é visionário.

Penso que, nesse sentido, é preciso acreditar um pouco mais nos talentos que temos aqui nesse Brasil maravilhoso.

Anúncios

Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: