O jogo de xadrez faz mágicas na educação


A ciência e a arte desse esporte têm ajudado estudantes a desenvolver a memória, a concentração, a criatividade e a habilidade de prever as consequências das próprias ações 

Pesquisas comprovam: A prática do xadrez ajuda no processo educativo. Foto: Naldo Gomes

Pesquisas comprovam: A prática do xadrez ajuda no processo educativo. Foto: Naldo Gomes

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Esssa reportagem foi produzida para o jornal “A Pauta é Nossa” do curso de jornalismo da UniSant’Anna e fecha o ciclo de matérias sobre xadrez publicadas em Jornalismo Freelance. Para acessar todas as entrevistas utilizadas na produção dessa reportagem, clique nos links abaixo:    

O blog Jornalismo Freelance entrevista Giovanni Vescovi;
Pai de campeã de xadrez fala sobre os benefícios educacionais do esporte;
Entrevista com Renato Quintiliano, campeão brasileiro de xadrez sub-16/2008;
Entrevista com a campeã brasileira de xadrez, Agatha Hurba Nunes.    

Leia também:

Roberto Stelling dá as dicas para quem quer ser árbitro de xadrez.    

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O que tem em comum o ator Al Pacino e o gângster Al Capone? A rainha Victoria, da Inglaterra, e a pintora Victoria Poyser? O computador da IMB, Deep Blue, e a máquina israelense Deep Junior? E entre o escritor Arthur Conan Doyle e o músico Artur Rubinstein?

Todos eles jogam ou jogavam xadrez que, por sua vez, é o segundo esporte mais popular no mundo – só perde para o futebol. Tem sido jogado há 1.500 anos com as mesmas regras, por crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, ricos e pobres, doentes e saudáveis, presos e libertos, humanos e máquinas.    

E além de ser democrático, é o esporte que possui a mais vasta literatura. Existem incontáveis livros, pinturas, gravuras, e mais de dois mil filmes contendo cenas que retratam o jogo.    

A prática do xadrez melhora a concentração. Foto: Naldo Gomes

A prática do xadrez melhora a concentração. Foto: Naldo Gomes

Para o campeão brasileiro sub-16 de 2008, Renato Quintiliano, o xadrez é visto como um passatempo para ricos e para nerds, mas quando se entra em contato com o universo desse esporte descobre-se que as coisas não são bem assim. “O xadrez promove a socialização de diferentes grupos, de diferentes raças e diferentes classes sociais e não tem preconceitos nesse sentido”, argumenta.

Uma ferramenta para a educação

Além de ser barato, esse esporte também tem trazido inúmeros benefícios educacionais. Pesquisas comprovam que sua prática pode aumentar a concentração e a memória dos alunos, entre outras melhorias.    

Na década de 1980, o professor do Instituto de Educação da Universidade de Londres, Robert Ferguson, realizou um teste que consistia em que todos os 14 estudantes do 6º grau da escola rural M.J.Ryan School, da Pensilvânia, Estados Unidos, tomassem lições de xadrez duas ou três vezes por semana.
Depois, Ferguson aplicou testes de memória de uma série de exames da Califórnia Achievement Tests e concluiu que a prática do jogo desenvolveu a memória dos estudantes e que essa habilidade foi transferida para a sala de aula.    

Em 2004, no Brasil, foi aplicado durante três meses o ensinamento teórico e prático do jogo em 40 escolas do Piauí, Pernambuco, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, para uma turma de aproximadamente 6.400 alunos. O projeto foi desenvolvido pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério do Esporte. Ao final, identificou que os alunos que participaram da pesquisa demonstraram, principalmente, uma melhoria na capacidade de concentração em sala de aula.    

O atual número 1 do Brasil e da América do Sul e, também, o brasileiro melhor colocado no ranking da Federação Internacional do Xadrez (FIDE) onde ocupa a 123ª posição é o Grande Mestre Giovanni Vescovi. O enxadrista diz que há muitos estudos científicos sobre os benefícios desse esporte, mas reclama que, no Brasil, os projetos precisam ser um pouco mais desenvolvidos. “Você não quer criar campeões nas escolas. Mas uma criança, muitas vezes, participa desses projetos e sai sem saber muito bem o que é o xadrez. Ela aprende os rudimentos, mas não é um negócio que ficou muito claro para ela. Ou, não é uma prática que se torna constante na vida dela e por isso, pode ser que ela não atinja os objetivos”.    

O jogo melhora o rendimento nas matérias exatas. Foto: Naldo Gomes

O jogo melhora o rendimento nas matérias exatas. Foto: Naldo Gomes

 Além da memória e da concentração, a prática do jogo também melhora o rendimento em matérias exatas. Para Marina Hurba Nunes, mãe da atual campeã brasileira sub-12, Agatha Hurba Nunes, o xadrez melhorou o desempenho da jogadora em matemática, matéria em que Aghata tem as melhores notas da sala.   

 O administrador Ricardo Alboredo, pai da atual campeã paulista sub-14, Júlia Alboredo, ressalta a independência como um dos quesitos trabalhados pelo esporte. “Com alguma frequência acontece um lance irregular durante uma partida contra um adversário muito mais velho e a Júlia precisa ter a coragem de parar o relógio, chamar o árbitro, explicar o que está acontecendo, argumentar e convencer o árbitro, olho no olho. Imagine quanta coisa ela exercita numa atitude dessas!”, comenta.    

O xadrez da UniSant’Anna    

A UniSant’Anna possui uma equipe sub-21 que treina todos os sábados na cidade de Suzano e participa de campeonatos regionais e abertos. Composta por seis homens e duas mulheres, todos têm bolsa de estudo de 100%.    

Quem joga xadrez na UniSant'Anna. Gráfico: Naldo Gomes

Quem joga xadrez na UniSant'Anna. Gráfico: Naldo Gomes

 Para o bolsista do curso de Educação Física e jogador da equipe UniSant’Anna, Robson Douglas Rocha, o xadrez é fascinante e os seus benefícios se estendem para a vida. “Sua prática proporciona não apenas ganhos em concentração, memória e criatividade, mas também o aprendizado com as derrotas e outros valores como o caráter e a educação, porque esse esporte exige isso de um jogador. Não existe aquela coisa do sexo frágil em que meninas não podem competir com meninos. Nesse sentido, todos podem competir de igual para igual”, explica.    

Uma enquete realizada pelo Jornal “A Pauta é Nossa” entre alunos da UniSant’Anna demonstra que 35% dos entrevistados já jogaram xadrez durante a vida e cerca de 10% praticam regularmente. O resultado da enquete demonstra que os homens praticam pouco mais que as mulheres.    

Os benefícios do xadrez para os alunos da UniSant'Anna. Gráfico: Naldo Gomes

Os benefícios do xadrez para os alunos da UniSant'Anna. Gráfico: Naldo Gomes

Entre os benefícios mais importantes apontados pelos estudantes está o desenvolvimento do pensamento lógico (22%) e da concentração (18%). Em terceiro lugar, a diversão (14%). A habilidade de prever as consequências das próprias ações aparece em quarto lugar, com 13% dos votos.

 

A orientação essencial    

É claro que existem cuidados que o praticante precisa tomar. Dentre eles, Vescovi comenta a necessidade de uma boa orientação: “O enxadrista bem orientado aprende muito em termos de autoconhecimento e autocontrole. Tem gente que não presta atenção nesse detalhe, então corre o risco de ir para o extremo oposto e ficar totalmente desequilibrado, xarope mesmo”.    

Os grandes campeões do xadrez são orientados psicologicamente e a vida deles se estende muito além do tabuleiro. Há a preocupação com o treinamento físico e com os aspectos emocionais da vida pessoal.    

Como qualquer esporte, o xadrez possui riscos e benefícios que precisam ser pesados antes de iniciar a prática.  

Humano Vs Máquina

O duelo entre Kasparov e Deep Blue

O melhor jogador humano de xadrez entre os anos de 1986 e 2005, o arzebanês Garry Kasparov, foi o primeiro campeão mundial a ser derrotado por uma máquina. 

Em 1997, o supercomputador conhecido como Deep Blue, criado por técnicos da IBM, venceu Kasparov numa série de seis partidas. A derrota deixou Kasparov humilhado a ponto dele dizer que os operadores haviam trapaceado e que, atrás dos movimentos da máquina, havia interferência de Grandes Mestres humanos. Em sua concepção, um movimento da segunda partida tinha sido criativo demais para um cérebro eletrônico. 

As ações da IBM ficaram tão valorizadas que a empresa preferiu desfrutar a vitória do que dar uma oportunidade de revanche. Então, o Deep Blue foi desmontado sob as acusações de Kasparov que descredibilizava completamente a vitória do supercomputador. 

No ano de 2003, Kasparov venceu a primeira partida de uma série de seis contra o computador campeão mundial israelense chamado Deep Junior que estava invicto havia dois anos: 

– Os computadores ainda têm muitos pontos fracos. – Disse na entrevista coletiva. 

O match terminou empatado, com uma vitória para cada e quatro empates. 

Hoje é comum que computadores joguem torneios contra os humanos e entre eles mesmos. Mas o mais assustador de tudo isso é que as máquinas tornaram-se capazes de competir intelectualmente, ao menos no jogo de xadrez, com os seres humanos.  

Fonte: O Jogo Imortal – David Shenk  

   

Você sabia? 

Que a atividade esportiva do xadrez possui um sistema matemático para avaliar e classificar os enxadristas? 

O sistema ELO, criado pelo professor de Física da Universidade de Milwaukee, o doutor Arpad Elo, é utilizado pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE) para classificar os jogadores num ranking. O sistema possui duas equações. 

A primeira equação é utilizada para calcular a força de um jogador novato: Ri=Rm+400.(PG-PP)/N. o resultado da equação é denominado rating. 

Traduzindo, a fórmula acima quer dizer: O “Rating inicial” é igual ao “Rating médio dos adversários”, mais 400, vezes “Pontos ganhos durante o torneio”, menos “Pontos perdidos”, dividido por “Número de partidas”. 

Para calcular o rating de um jogador veterano utiliza-se a fórmula: Rn=Ra+K.(P-Pe) onde Rn é o “Rating novo”, Ra é o “Rating antigo”, K é “Constante”, P significa “Pontos obtidos” e Pe “Pontos esperados”. 

O atual número 1 do ranking da FIDE é o norueguês Magnus Carlsen, 19, com um rating de 2813. Entre as mulheres, a húngara Judit Polgar ocupa a primeira posição com um rating de 2682.  

Fonte: Introdução à Organização e à Arbitragem – Carlos Calleros  

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

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