Pai de campeã de xadrez fala sobre os benefícios educacionais do esporte


Jornalismo Freelance entrevista Ricardo Alboredo, pai da campeã paulista de xadrez sub-14/2010, Júlia Alboredo 

O xadrez é um esporte sociável. Uma criança pode jogar contra um adulto. Mulheres podem jogar contra homens. Além disso, o aprendizado ultrapassa o tabuleiro e tem sido essencial na educação de filhos e estudantes. Foto: SXC

O xadrez é um esporte sociável. Uma criança pode jogar contra um adulto. Mulheres podem jogar contra homens. Além disso, o aprendizado ultrapassa o tabuleiro e tem sido essencial na educação de filhos e estudantes. Foto: SXC

Naldo Gomes: Conte-me sua história, a história da sua família e da sua filha e como o xadrez entrou na vida de vocês. 

Ricardo Alboredo: Eu fui um temporão no xadrez, joguei muito pouco tempo, na minha adolescência. Comecei a trabalhar cedo, com 14 anos.

Antigamente tinha clubes de xadrez. Em Osasco, mesmo, tinha um clube bem frequentado que se chamava “Padics” (SIC). Bem antigo e tudo, hoje não existe mais. A internet esvaziou muito os clubes de xadrez. Isso, no mundo inteiro. Eu frequentava esse clube. E o xadrez tem uma coisa curiosa, eu tenho amigos desde aquela época da “Padics”. Amigos de mais de trinta anos. 

Então, eu joguei muito pouco tempo porque comecei a trabalhar cedo. Dois, três anos, participei da equipe de Osasco, uma equipe de molecada. Cheguei a viajar, o que a minha filha faz hoje. Cheguei a viajar com a equipe de Osasco para alguns torneios. Mas foi só durante um período de poucos anos na minha pré-adolescência. 

Eu jamais imaginei que ia ter uma filhinha que fosse gostar de xadrez. Eu, sinceramente, não tenho influência nenhuma nisso. É uma coisa que já nasceu com ela. Para mim foi uma grata surpresa e a Júlia me fez voltar a jogar xadrez. E a gente sabe de muitas histórias de pais que forçam a barra, mas no meu caso foi o contrario, foi a Júlia quem me fez voltar a jogar xadrez. 

Ela briga para eu jogar os torneios porque há torneios em que nós podemos jogar juntos. E ela faz questão que eu jogue. É uma alegria para ela me ver jogando ao seu lado. 

Então, começou no prezinho com uma coisa lúdica, aquela coisa do xadrez gigante, os movimentos, isso com cinco ou seis aninhos, sete aninhos. E musiquinha, o cavalinho que pula, o peãozinho, o bispo, o rei. Então, começou com esse trabalho muito legal de uma escola chamada Grupo Oficina, na Vila São Francisco. Um trabalho bastante sério com esse negócio de xadrez. 

Acho que ela pegou gosto lá mesmo. Acho que já nasceu com ela esse talento, essa habilidade natural dela. E com essa coisa gostosa, de musiquinha, essa questão lúdica, desenhinho e tal. 

Depois foi para o Grupo Sabin, um colégio que faz um trabalho bastante sério, com o professor Rezende. Até 2008, estudou no Sabin. Acho que o Sabin é pentacampeão brasileiro ou é hexacampeão brasileiro, não me lembro bem agora. A Júlia participou de um desses títulos aí. A Júlia foi campeã brasileira em 2007, 4ª série, 10 aninhos. Foi muito legal, um orgulho para a gente, uma grata surpresa. 

E aí ela não parou mais. Duas paixões na vida dela: Futebol, que ela joga desde pequenininha. Quisera eu que ela se dedicasse metade do que ela se dedica ao futebol, por xadrez. Ela já estaria bem mais… Tem vontade de começar a treinar por um clube, mas a gente mal tem tempo e grana para acompanhar o xadrez. É tudo muito difícil hoje e o xadrez custa torneios, custa estar aqui quatro dias. Tem torneios que você gasta com hotel, tem que pegar avião.

Assista essa entrevista:

 

Quando um jogador chega num determinado nível, começa a custar. Você precisa ir atrás de patrocínio, tem que pedir ajuda para a escola, tem que começar a se movimentar. Porque senão, a família não aguenta. Mas não é só a questão financeira. É todo um desgaste. Você tem que acompanhar, são crianças ainda. E a gente faz o que um pai e uma mãe, no meu entendimento, tem que fazer, que é: Motivar, apoiar e acompanhar. 

É isso, para mim é uma grande alegria poder acompanhar a Júlia. É uma coisa que ela gosta de fazer. Como eu já disse, as duas paixões dela são o futebol e o xadrez. Uma pena que não dá para fazer as duas coisas. 

Depois de três vice-campeonatos Paulista: 2007, 2008, 2009… Já estava uma zica isso daí. Estava um vodu, uma coisa louca. Ela deixou escapar três anos seguidos. Mas em 2010 ela fez um grande campeonato, graças a Deus. Um grande torneio, seis rodadas, seis pontos. Seis pontos em seis possíveis. E acho que ela mereceu. Ela merecia porque depois de três vice-campeonatos… Não só pela garra que ela jogou, pela dedicação, por todo o empenho dela… 

NG: Foi a melhor colocação dela? 

RA: Acho que um Campeonato Brasileiro escolar [que ela venceu em 2007, em Poços de Caldas]. Não sei o que tem mais valor. Não tem muita diferença. O Campeonato Brasileiro de categorias, basicamente são as mesmas categorias. É uma ou outra que está uma séria à frente ou uma série atrás. Mas 90 ou 95% das meninas são praticamente… É claro que num Campeonato Brasileiro Escolar tem mais gente. As escolas enchem ônibus. É um torneio maior. Tem muito mais criança num Campeonato Brasileiro Escolar. 

Mas as jogadoras que se encontram num Campeonato Brasileiro Escolar acabam se encontrando num Campeonato Brasileiro de Categorias, que acontece, mais ou menos, no meio do ano. Esse ano, excepcionalmente, por razões que a gente desconhece, a Confederação Brasileira de Xadrez (CBX) antecipou isso para o começo de abril, feriado de Páscoa, já aconteceu, inclusive. A Júlia ficou em nono lugar. A gente não considera uma boa colocação. Não foi um bom torneio para ela. Não foi uma experiência agradável esse torneio lá no Espírito Santo esse ano para a Júlia. Acho que ela podia mais e merecia mais. 

NG: Em sua opinião, quais são os benefícios que o xadrez pode trazer para a sociedade e que benefícios ele trouxe para a sua família, principalmente? 

RA: A gente fala muito em lógica, matemática… Acho que isso é um resultado quase que imediato. Isso não sou eu quem está dizendo, só em relação à Júlia. Isso, os educadores dizem. Isso é provado cientificamente. Os estudiosos dizem que, na matemática, há um ganho excepcional muito rapidamente. 

Agora, eu vejo que o xadrez trabalha muitas outras coisas. Teve um tempo em que eu falei: 

– Puxa! O futebol… 

Eu até consultei o pediatra dela e alguns entendidos do esporte. Fiquei meio encanado com isso daí. Como pode? Num primeiro momento, a gente que não entende nada, acha que são duas coisas completamente diferentes. Dois opostos. Enquanto a menina está lá com a adrenalina a mil por hora, querendo fazer gol, e corre para lá, ajuda na defesa e tudo. E num tabuleiro, o comportamento tem que ser outro, completamente diferente. 

A gente pensa que é diferente. Mas aí, me convenceram justamente o contrário. Mostraram-me que tem tudo a ver. O xadrez pode ajudar, não só no futebol, pode ajudar em outras modalidades. Hoje se faz muito isso, em alguns clubes. Uso do xadrez antes de disputar uma partida de alguma coisa, de voleibol, antes de uma competição de natação, e depois, também. Essa questão de espaço, velocidade e tempo. Xadrez tem tudo isso. Não é só lógica, estratégia e tática. 

O xadrez tem essa questão de que você tem que analisar um jogo, o tabuleiro, como um todo. Não é só aquele lance, naquele momento. Aquele ataque específico que você está sofrendo ou um ataque específico que você está a fim de fazer. Espaço, velocidade, tempo… O relógio, você tem que controlar isso, tem que estar de olho no relógio, tem que fazer o seu jogo de acordo com o tempo. Assim como quase todo esporte, o relógio é um ponto fundamental. 

Eu acho que o xadrez trabalha muita coisa. A Júlia – em alguns torneios – tem que jogar com gente mais velha. Aí acontece um lance irregular. Se é uma pessoa mais velha… Isso aconteceu comigo várias vezes. Não sei se a pessoa fez de propósito ou fez… Foi um lance irregular que um adversário mais velho não poderia ter feito. A Júlia, com sete ou oito anos… Imagine quanta coisa a criança trabalha nesse momento. Ela tem que parar o relógio. Tem que ter a coragem de parar o relógio, chamar o árbitro, explicar o que está acontecendo, o que está incomodando ela naquele momento, o que há de errado ali. Convencer o árbitro, olho no olho. Argumentar com o árbitro, tudo isso com uma pessoa mais velha que ela. Quanta coisa ela exercitou numa atitude dessas? Coragem para defender o que é de direito dela, com tão pouca idade. Coragem de parar um relógio, chamar um adulto, explicar direitinho o que está acontecendo ali. Dizer: 

– Olha, eu estou no meu direito. Ele fez um lance irregular. Não poderia ter feito esse lance. Está errado. 

Você imagina quanta coisa a criança trabalha numa atitude dessas. E a gente ouve de educadores. Já ouvi muito isso em reuniões de escola: O xadrez trabalha os índices de idas à coordenação, à diretoria. Essas coisas diminuem, parece que eles ficam mais comportados, não sei o que acontece. 

NG: É a mágica do xadrez. 

RA: São as mágicas aí, não sei. Acho que eles ficam mais calmos, mais serenos. A questão da sociabilidade, o respeito ao seu adversário. O cumprimento antes da partida. O cumprimento depois da partida.  Você pode ter levado uma surra do seu adversário, mas no final você tem que cumprimentá-lo. Dar os parabéns para ele. Dificilmente tem modalidade que tem esse tipo de coisa. Isso é bonito no xadrez. Saber lidar com derrotas, isso é importantíssimo. Não dá para ganhar sempre e a vida é assim. Você tem que aprender com isso. Uma hora bate na trave. O ser humano é complicado em relação a isso. A gente tem essa coisa, parece que a natureza da gente é querer ganhar sempre. E o xadrez, como tudo na vida, não é assim. Vontade a gente tem de ganhar sempre. Mas se perde muito. E é só perdendo muito que você cresce, que você aprende. 

Tudo na vida é assim e com o xadrez não é diferente. Então, às vezes bate na trave, tem partidas ganhas que se acaba perdendo, tem partidas ganhas que se acaba empatando, às vezes numa bobeira. E é assim que se cresce no xadrez, é assim que se cresce na vida: Apanhando mesmo, apanhando com as derrotas. 

NG: Tem uma questão muito interessante que você estava falando comigo aqui nos bastidores, que é a questão do homem e da mulher no jogo de xadrez. Qual a sua opinião a respeito desse assunto? Quem é mais forte no xadrez, o homem ou a mulher? 

RA: Olha, é o homem o mais forte. Não sei te explicar, pergunte ao Papai do Céu. Eu não sei te explicar. Eu sou fanzão do ser humano mulher, do bicho mulher. Eu já te falei isso daí nos bastidores. Eu, particularmente, acho a mulher um ser humano fantástico. Uma criatura fantástica. Para mim, ela é melhor em quase tudo nesse mundo. 

Curiosamente, no xadrez, não é assim. E não sou eu quem está dizendo. É a prática. É o dia-a-dia. São os resultados. Os números não mentem. E os estudiosos, os cientistas, os médicos. Realmente, eu não sei te explicar, porque eu não sou nenhum expert no assunto. Eu falo como pai de uma enxadrista menina e eu vejo a diferença de uma mulher da mesma idade, com a mesma estrada de xadrez, com os mesmos anos de experiência de xadrez, a diferença é brutal. 

O xadrez tem uma série de coisas, não é só lógica. É aquela coisa que nós conversamos agora pouco: Espaço, velocidade, tempo, tática, estratégia, serenidade, saber o momento certo de recuar. A gente tem que recuar. Não dá para jogar no ataque o tempo todo. Estica e puxa a corda, volta. Vai para o ataque de novo, recua outra vez. Não tem tempo para isso, o relógio está ali. Eu não sei, o desenvolvimento do homem no xadrez é maior do que o da mulher. Isso a gente vê na prática. Talvez algum médico ou cientista possa explicar, em termos científicos, clinicamente falando, quais são as prováveis razões para que isso possa acontecer. 

O fato é que a gente – como pais – colocamos as meninas para treinar com os meninos da mesma idade ou até mais velhos. Porque o xadrez delas cresce muito nessa coisa de jogar com um menino. 

NG: Que tipo de emoção um pai de enxadrista sente durante um torneio quando, por exemplo, ele sabe que a filha ou o filho está diante de uma partida decisiva? 

RA: É pior do que estar no torneio. Eu já nem corto a unha porque eu preciso de unha para comer. E é uma loucura, é alucinante. Ser pai de enxadrista é uma coisa louca mesmo.  Você vibra com eles, joga junto com eles. Dá risada, chora junto. Perde junto. 

E você está de fora, vendo um empate, e às vezes chega a perder com um empate na cara. Mas é aquilo que eu te falei. É ela quem está ali, é ela quem está vendo, é o momento dela. O relógio está ali e é ela quem sabe. 

A gente está de fora e acha que ela poderia ter feito uma jogada melhor. A gente acha muito, mas só que a gente não está no tabuleiro vivendo aquele momento que pode saber o que é melhor. Mas a gente sofre muito, isso eu posso te garantir. 

Mas é uma alegria. É um orgulho muito grande. Apesar de muitos momentos de sofrimento, com certeza… 

Estou nessa vida com a Júlia desde 2005, mais ou menos. Teve um Campeonato Brasileiro Escolar aqui no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Depois, não teve mais nada aqui em São Paulo, infelizmente. E nós temos grandes jogadores aqui em São Paulo, tanto no masculino, quanto no feminino, em todas as categorias. Então, a gente acha que a Federação Paulista tem feito muito pouco pela qualidade do xadrez que a gente tem aqui em São Paulo. 

Eu me lembro do Campeonato Brasileiro de Xadrez Escolar de 2005, depois desse ano não teve mais nada. Então, eu acho que deveriam fazer coisas que facilitassem a vida dos paulistas um pouquinho mais. A gente está sofrendo muito, tem que ir para o interiorzão. Ou senão, vira e mexe, tem que sair do estado. 

O Campeonato Brasileiro de Categorias acabou de acontecer no Espírito Santo. Para a gente que mora em São Paulo é um despropósito. É muito gasto. É desgastante. O Campeonato Brasileiro Escolar vai ser em Minas Gerais de novo. 

Para nós de São Paulo, a vida de pai de enxadrista é complicado. E nunca se faz nada aqui no eixo de Campinas, Santos… Faz-se muito pouca coisa aqui próxima da Capital, da Grande São Paulo. Faz-se muita coisa nos interiores: 300, 400, 500 quilômetros de uma grande quantidade de enxadristas que mora aqui nessa região de São Paulo e nas cidades próximas daqui. 

Tem muita gente aqui que acaba tendo que viajar muito para ir para um torneio. Para ir levar um filho, acompanhar um filho, num torneio. 

NG: Como é o treinamento de um jogador de xadrez? 

RA: Você tem vários tipos de treinamento. O treinamento presencial é, com certeza, mais proveitoso. É como qualquer tipo de aula. 

O Skype é uma alternativa mais barata e também quebra um galho. Hoje em dia, usa-se muito isso aí, até por uma questão de custo de todo mundo: Do professor e do aluno. 

É um treinamento mais barato, o Skype é gratuito, você baixa. 

NG: O professor pode estar em qualquer lugar do mundo e você pode fazer a aula tranquilamente. 

RA: Exatamente. Via Skype você pode ter aula com qualquer profissional, de qualquer parte do mundo. 

Aula presencial é aula presencial. Não tem para ninguém. É uma aula mais cara, mas é uma aula muito mais proveitosa. Não é só o xadrez e aí entra outra química. Contato, ser humano, isso tudo é muito mais rico. Olho no olho, confiança do profissional, a empatia, aquela coisa. Isso não tem máquina, não tem Skype que resolva. 

Hoje existem muitos sites e muitos deles gratuitos. Você baixa na sua máquina e é como se fosse um clube. Quando eu disse que a internet esvaziou os clubes é em função disso. Hoje existem verdadeiros clubes de xadrez na internet, com rating, que medem o nível do jogador, a força teórica dele, que é o rating médio. Você escolhe a cor de peças que se quer jogar. Escolhe-se até… “Ah! Eu quero jogar com um jogador que tenha rating de 1500”, por exemplo. 

NG: Mas a pessoa que está do outro lado da tela pode estar com outro computador onde está utilizando o Fritz e pode estar enganando todo mundo. 

RA: Pode ser. Isso acontece muito. Só que ele precisa ter tempo para isso. Também tem isso. 

Então, jogador de internet quer uma diversão rápida, um treinamento rápido. Às vezes ele quer treinar uma abertura somente. Ele não quer nem jogar. Quer jogar cinco por cinco para treinar uma abertura. Para ver o que é que o outro joga naquela abertura nova que ele está estudando, por exemplo. 

Dificilmente você pega alguém, na internet, querendo jogar mais do que meia hora. É muito raro. 

NG: Esses torneios valem dinheiro? 

RA: Não. Que eu saiba não. Não conheço nenhum torneio da internet que valha dinheiro. O ICC é um dos mais famosos, se não for o maior do mundo. Esse site não é caro, mas é pago. Há vários sites bons que funcionam 24 horas por dia, onde há gente do mundo todo a fim de jogar. 

Dependendo do site, tem a questão do fuso horário. Mas enfim, hoje se pode jogar com muita gente, 24 horas por dia. E é uma forma de treinamento, também. 

Livros. Diagramas. Uma forma de estudar é você matar uns dez diagramas por dia, por exemplo, principalmente em véspera de torneio. Quisera eu que a minha filha estudasse, pelo menos, uma horinha por dia. Joga bola que é uma beleza, joga muito futebol! 

Mas enfim, é um talento maravilhoso. Ela nasceu com isso, com uma visão de jogo. Ela descobre jogadas e tem até um apelidosinho aí, no meio. É Jú Coringão porque ela é corintiana roxa. E o Corinthians tira esses milagres aos 47, 45, empata jogo perdido, às vezes ganha jogo perdido e a Jú tem essas coisas. Ela tem uns coelhinhos na cartola. 

NG: E um jogador consegue transferir isso para situações da vida? 

RA: Tranquilamente… Tudo isso que ela está aprendendo no tabuleiro,
saber lidar com derrotas, respeito, humildade, falta muito no ser humano, hoje em dia. Você jogar com alguém sabendo que é muito inferior a você… Não estou dizendo que isso é regra geral, mas acho que a grande maioria dos enxadristas tem essa questão da humildade, respeito, porque um dia você pode estar perdendo dele. Se você der uma bobeadinha de uns meses, e o cara continuar estudando, você, fatalmente, vai perder dele uma hora. 

Então, respeite o seu adversário. Se ele continuar treinando e você der uma bobeadinha de alguns meses… Principalmente criança. A diferença entre crianças da mesma idade, se uma continua estudando e a outra dá uma parada, dá uma relaxadinha, seis meses, é brutal.  Criança de 10, 11, 12 anos, 13 anos, a idade da Júlia, seis meses de estudo, pegando firme… E uma criança dá uma parada, a diferença é brutal. 

E eu vejo que tudo isso ela vai levar para a vida dela. Vai ser… Já é uma criança descolada, consegue lidar com facilidade com situações, consegue ir à sala de uma coordenação, de uma diretoria de escola, com humildade, com tranquilidade, com serenidade, explicar o que está acontecendo, o que está incomodando ela. Brigar, entre aspas, quando ela vê que tem alguma coisa incomodando ela. 

– Não, isso não está legal para mim. 

Seja com uma amiguinha de escola, seja com a professora, seja com quem for. Muito respeito isso daí, com propriedade. Como é que vai tirar uma conclusão ou argumentar de bobeira? Não, tem propriedade. E tem muito disso no tabuleiro, viu? Porque quando se chama o árbitro – lembra daquela historinha que eu contei no começo? – você tem que ter propriedade, você tem que saber o que está falando. Você não vai chamar o árbitro para falar bobagem porque você vai ser prejudicado e ele pode até te punir. 

Então, tudo isso ela vai levar para a vida. O respeito com próximo, sociabilidade. A guerra é no tabuleiro. Tem amiguinhas dela aqui que ela joga desde pequenininha, desde sete ou oito anos de idade. Elas vão para a guerra no tabuleiro. Daqui a pouquinho estão brincando de gangorra, estão dando risadas, estão falando bobagens. Vira e mexe se comunicam pelo MSN na internet. 

O xadrez tem uma coisa curiosa, são amizades que perduram muitos anos. É uma coisa louca. É aquela coisa mágica. O xadrez tem uma coisa mágica aí. Essa é uma delas. É uma coisa engraçada, é curioso. Você pode fazer uma pesquisa com adolescentes, é uma coisa impressionante. Molecada que jogou junta… Eu estou falando isso por mim e eu vejo a Júlia que começou com sete aninhos, seis aninhos, já está com 13. E até hoje está aí, se comunicando, se falando, mudou de escola, mas ainda se fala no MSN… Elas cruzam-se nos torneios, a amizade é a mesma. 

As amizades duram 20, 30 anos, é uma coisa louca. O xadrez tem isso. Eu falo para você que eu parei de jogar com… Comecei a trabalhar com 14, mas o tabuleiro sempre fica ali, num cantinho, montado. 

É como um instrumento, como a música. Uma vez que pegou o instrumento, você nunca mais vai largar na sua vida. Você pode até colocar o violão ou o teclado em cima do guarda-roupa, mas uma hora você tira. É uma coisa engraçada e o xadrez é assim. E você não para nunca, sempre tem um torneiozinho na escola, um torneiozinho na empresa, nem que você não esteja jogando, você vai lá empurrar as peças, você vai lá mostrar alguma coisa. 

Foi assim comigo. Eu praticamente parei com 14 anos porque eu comecei a trabalhar e nunca abandonei o xadrez. Sempre está ali, tenho alguns livros em casa, o tabuleirinho está sempre ali, você sempre dá uma pegadinha nas peças, sempre está num torneiozinho na empresa, sempre procura ler alguma coisa, o que está acontecendo no mundo do xadrez, no Brasil. Você nunca se desliga totalmente. 

Depois, Papai do Céu me prega essa peça aí. Me faz essa bênção e uma sacanagem ao mesmo tempo, porque é um sofrimento ser pai de enxadrista. Mandou-me a Júlia, que joga muito, graças a Deus. Ela é uma grande jogadora, mas se ela quiser, realmente, continuar, tem que estudar. Xadrez tem isso, é como a música. É infinito. E tudo o que é infinito é muito lindo. Você olha para o mar quando está na praia e ele parece infinito, não é? Isso é que é uma coisa maravilhosa. Você fica fascinado quando você olha para o mar. Você olha para o céu… A gente sabe que não é infinito, mas é lindo. É uma coisa mágica, é uma coisa muito bonita… E quanto mais estuda você vê que precisa aprender mais. É uma coisa muito legal. 

Leia posts relacionados:

Entrevista com Renato Quintiliano, campeão brasileiro de xadrez sub-16/2008;
Entrevista com a campeã brasileira de xadrez, Agatha Hurba Nunes;    
Roberto Stelling dá as dicas para quem quer ser árbitro de xadrez;
O xadrez faz mágicas na educação;
O blog Jornalismo Freelance entrevista Giovanni Vescovi.

 

Anúncios

Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

5 Responses to Pai de campeã de xadrez fala sobre os benefícios educacionais do esporte

  1. Pingback: Roberto Stelling dá as dicas para quem quer ser árbitro de xadrez « Jornalismo Freelance

  2. Pingback: Entrevista com a campeã brasileira de xadrez, Agatha Hurba Nunes « Jornalismo Freelance

  3. Pingback: Entrevista com Renato Quintiliano, campeão brasileiro de xadrez sub-16/2008 « Jornalismo Freelance

  4. Pingback: O blog Jornalismo Freelance entrevista Giovanni Vescovi « Jornalismo Freelance

  5. Pingback: O jogo de xadrez faz mágicas na educação « Jornalismo Freelance

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: