Entrevista com Renato Quintiliano, campeão brasileiro de xadrez sub-16/2008


Tática, estratégia, benefícios, mulheres no xadrez e muito mais nessa entrevista imperdível realizada pelo blog Jornalismo Freelance

Depois de vencer o Campeonato Brasileiro sub-16/2008, Quintiliano põe foco na busca pelo título de Mestre Fide. Foto: SXC

Depois de vencer o Campeonato Brasileiro sub-16/2008, Quintiliano põe foco na busca pelo título de Mestre Fide. Foto: SXC

Naldo Gomes: Fale-me sobre sua história – conte-me uma breve biografia – e em que ponto dela você passou a se interessar por xadrez.

Renato Quintiliano: Ah, então. Foi meio por acaso. Não foi intencional. Eu estava na quinta série e aí, como a gente ainda não tinha atestado médico para fazer educação física, o professor nos mandava para a quadra, onde colocava uma mesa de pingue-pongue de um lado e uma mesa de xadrez do outro. Quem não queria jogar o xadrez, jogava o pingue-pongue.

Então, ficava jogando o pingue-pongue, mas como era meio ruim e só perdia para os caras, aí eu olhava os moleques jogando xadrez e um dia eu falei:

– Ah! Eu vou aprender esse jogo aí para ver como é que é. Aqui [no pingue-pongue] eu fico meia hora na fila e perco de zero. Eu vou lá ver como é que é.

Cheguei lá e em dez minutos eles me ensinaram a mexer as peças e eu gostei, né? Comecei a jogar com os amigos, na escola. A gente tinha um grupo de um pessoal que gostava de jogar e jogava sempre. E um ano depois eles foram parando e eu continuei.

Interessei-me, e comecei a ir atrás de torneios, ler livros, comecei a conhecer o pessoal que joga. Isso foi em 2000… Quando eu tinha 11 anos… Foi em 2003. E estou até agora aí. Estou treinando, disputando torneios. Foi assim que eu aprendi.

NG: Qual a importância do xadrez na sua vida? Que benefícios ele lhe trouxe?

RQ: Ah! Tipo, eu acho que eu era meio agitado, assim. Daí, quando eu comecei a jogar eu fiquei mais calmo. Aprendi a ficar mais concentrado nas coisas que eu faço.

Fora que, eu conheci muitos amigos, também, por causa do jogo. Meus melhores amigos são do xadrez. A maioria, que me conhece desde moleque. Faz bastante tempo já.

E a paixão pelo jogo, a emoção que eu sinto que, muita gente não entende, mas sinto emoção jogando. É a minha vida o xadrez, hoje.

Assista essa entrevista:

NG: Qual a importância do xadrez para a sociedade e que benefícios ele pode trazer a ela?

RQ: Então, eu acho que faz um tempo já que as pessoas veem o xadrez como um esporte feito para gente rica e para nerd, um pessoal mais inteligente. Só que, ultimamente, quanto mais eu vou aos torneios eu vejo que as pessoas são assim como eu. Eu não sou uma pessoa de classe rica, de classe alta, e jogo.

O xadrez promove a socialização das pessoas de diferentes grupos, de diferentes raças, diferentes classes. O xadrez não tem muita diferenciação, nesse sentido. As pessoas se sociabilizam bastante. O xadrez é benéfico para a sociedade.

NG: De quantos campeonatos você participou e qual a sua melhor colocação?
Nossa! Sete anos [de xadrez] é muito torneio. Não sei, mas acho que uma média de uns 200 campeonatos. Mas a minha melhor colocação, eu já fui campeão, né? Já ganhei alguns torneios e tenho que ganhar outros.

O torneio mais importante que eu já ganhei foi o Campeonato Brasileiro de 2008, sub-16. E o Paulista sub-16.

NG: Que portas esses torneios abriram para você?

RQ: Eu não era um jogador conhecido. Eu fui jogar o Paulista e foi o primeiro Paulista que eu joguei. Daí as pessoas começaram falar que eu tinha ganhado o Paulista sem pegar ninguém. Então, eu fui jogar o Brasileiro e ganhei também.

Depois, começaram a dizer que no Brasileiro eu também não tinha pegado ninguém, mas só que são dois títulos importantes e que acabaram que dando reconhecimento a nível nacional. Passei a ser um jogador mais conhecido, comecei a disputar mais torneios, apareceram propostas de outras cidades para eu ir jogar. Foram torneios que me ajudaram muito a chegar onde eu estou hoje.

NG: Você foi campeão brasileiro em 2008. Você já teve que defender esse título? Como foi essa defesa de título?

RQ: Na verdade, foi assim: Eu fui campeão brasileiro de 2008, sub-16. Só que, era o meu último ano no sub-16. Aí, no ano passado, eu já era sub-18. Então, eu joguei no sub-18. Eu era o atual campeão sub-16 e não tive como defender o título do sub-16. Só que, eu joguei no sub-18 e, infelizmente, não fui campeão, né?

NG: Que emoções um jogador de xadrez sente nesses campeonatos?

RQ: Durante os torneios, durante as partidas – as pessoas não percebem – mas são turbilhões de emoções.

Às vezes você começa um torneio mal e aí fica meio abatido, meio triste. Só que, se conseguir uma recuperação você já fica mais elétrico, fica mais animado.

E na partida mesmo, às vezes você acha que está bem, está feliz, está gostando do desenvolvimento, mas aí você leva uma surpresa e fica meio assustado.

Acontecem muitas emoções durante os torneios.

NG: Nos torneios, as partidas acontecem uma atrás da outra ou os jogadores têm algum período de descanso?

RQ: Depende, tem vários tipos de torneios. Tem torneios que têm uma rodada atrás da outra, só que, aí, são rodadas com o tempo reduzido.

Agora, quando são torneios que têm uma hora e meia para cada jogador e as partidas demoram, aí são uma ou duas partidas por dia e o torneio pode durar uma semana. É assim, tem um intervalo.

NG: Há dois estilos bem característicos no xadrez: O tático e o estratégico. Fale sobre esses dois estilos. E me diga: Qual o seu estilo?

RQ: O estilo tático é quando o jogador que procura mais golpes na posição. Mais golpes de sacrifícios, de combinações, para tentar ganhar peças. É um cara que procura golpes mesmo. Que tenta forçar o outro a errar para poder adquirir uma vantagem material.

E o estilo estratégico procura achar os planos da posição, achar as casas certas onde colocar as peças para conseguir, vamos dizer assim: Uma harmonia ideal nas posições. Impossibilitar o adversário de realizar lances que favoreçam a posição dele, como se fosse restringir o adversário cada vez mais.

Se você tiver um jogo estratégico apurado, você acaba chegando à parte tática. Porque chega uma hora que o cara não tem mais lances e acaba tendo que se arriscar de algum jeito e acaba sobrando um golpe tático na posição.

Então, o meu estilo é mais tático porque desde moleque tenho tido treinamento mais tático, mesmo. Só que, ultimamente, tenho tentado aperfeiçoar o estilo estratégico e acho que o jogador ideal tem que ter os dois estilos. Sempre vai evidenciar um ou outro, mas tem que ser bom nos dois: Tático e estratégico.

NG: Dos grandes jogadores, do passado ou da atualidade, em qual você se espelha?

RQ: Do passado, gosto bastante do Capa Blanca que, foi um jogador cubano, terceiro campeão mundial da história oficial. Ele tinha um estilo estratégico e jogava muito bem os finais. Ele tinha um cálculo muito apurado e jogava muito bem os finais que, é uma parte essencial da partida.

E da atualidade, eu gosto de um jogador do Azerbaijão chamado Mamedyarov. Ele tem uma tática muito apurada. É um jogador extremamente bem preparado e tem uma visão tática muito boa nas posições.

NG: Como é o seu cálculo? Você consegue prever quantas jogadas?

RQ: Depende. Tem posições que são mais simples. Em posições mais simples você acaba enxergando menos à frente. Mas tem algumas posições táticas que têm variantes e subvariantes, onde você tem que desenvolver muito o cálculo. Eu sei que, uns oito ou nove lances eu consigo ver à frente.

NG: Como é o treino para jogadores de xadrez? Vocês utilizam programas de computador como o Fritz? O treino é somente no tabuleiro ou ele inclui algumas atividades físicas como alongamento do corpo, aquecimento ou alguma atividade pré-treinamento?

RQ: O preparo físico não. Mas é interessante, tem alguns jogadores que têm. Os jogadores que são top, os top-10, eles têm um preparo físico excelente, preparo psicológico.

Porque é aquilo também, você está calculando e de repente, acontece uma coisa que você não esperava durante uma partida… Bate um psicológico. Então, fica mais difícil de você calcular, você fica meio atordoado.

Então, o jogador ideal tem que ter esse preparo psicológico, físico, é interessante. A gente não pratica e a maioria das pessoas não pratica exercícios físicos antes das partidas.

Mas um preparo físico bom é o quê? É uma pessoa saudável que, pratica esportes. Isso já é um preparo físico para a partida.

E, para preparar mesmo, a gente usa livros. Lê livros, reproduz partidas no tabuleiro e usa programas também porque a máquina, ela tem o cálculo muito mais avançado. Se você colocar uma posição na máquina, ela te dá o lance exato que você tem que fazer.

É interessante usar programas na preparação e, também, ler livros, porque xadrez é conhecimento. Livros para adquirir conhecimento e, a máquina, é para te ajudar a ver coisas mais precisas nas posições.

NG: Você joga quantas partidas por dia?

RQ: Tem dias que eu fico sem jogar. Mas existe um site onde você pode jogar partidas de tempo bem curto. Daí dá para jogar 50 partidas num dia, tranquilo.

NG: Como funcionam as designações do tipo Grande Mestre?

RQ: A gente tem a Federação Internacional de Xadrez e eles atribuem pontos a cada jogador. Esses pontos são chamados de rating. Pode ter, desde 1300, até o máximo que você conseguir. Quando chega em 2300 pontos, você pode pedir um título que, é o de Mestre Fide.

A partir desse Mestre Fide, você tem que conseguir mais 100 pontos e chegar em 2400 e fazer três normas que, são como performances em três torneios de nível alto. É quando você ganha o título de Mestre Internacional.

E depois disso, você tem que ganhar mais 100 pontos e chegar em 2500, fazer mais três performances, três normas, é quando você poderá pedir o título de Grande Mestre que, é o último título: Grande Mestre Internacional.

NG: O xadrez é um jogo que utiliza muita lógica, muita matemática. Mas agora, eu gostaria que você me falasse sobre o lado humano do xadrez. Quem são essas pessoas que jogam xadrez? Elas têm um perfil mais introvertido ou mais extrovertido?

RQ: Ao longo dos anos, o perfil que é mostrado sobre o xadrez é que é um esporte para as classes mais altas, pessoas mais cultas, com o perfil mais introvertido, mais tímido, mas quieto. Só que, ultimamente, não é assim. As pessoas que tem jogado ultimamente são mais extrovertidas, mais abertas. E tem caído um pouco a imagem de que só os nerds jogam xadrez. Apesar de que, 90% das pessoas ainda acham isso.

É difícil explicar e só quem joga sabe que não é assim. Têm pessoas que são muito ruins na escola e jogam xadrez muito bem. Inteligência é uma coisa que você canaliza. Se você quiser ser bom em alguma coisa, você vai ser bom. Você não precisa ser inteligente em outras coisas para acabar sendo bom naquilo.

NG: Você já me falou sobre o jogador que você gosta mais que, é o Capa Blanca. Mas, na sua opinião, qual foi o melhor jogador de todos os tempos? O Pelé do xadrez.

RQ: Essa é difícil, mas eu fico com o último ex-campeão que se aposentou, o Kasparov.

NG: Mas ele perdeu para a máquina!

RQ: Mas essa é uma história bem controversa. Ele perdeu para a máquina, mas era uma coisa que inventaram especialmente para ganhar dele. Era muito difícil, foi um match muito difícil. Há especulações de que ele não estava jogando contra a máquina, que havia vários mestres atrás da máquina manipulando os lances. É meio estranha essa história, eu não conheço direito, mas foi…

Para muitos, ele é o melhor jogador de xadrez.

NG: Você gosta do xadrez das mulheres, das húngaras, as irmãs Polgar, especificamente?

RQ: As irmãs Polgar são bem famosas. A Judit Polgar conseguiu chegar entre os tops 10 do mundo. Entre as mulheres, ela é a que teve maior sucesso no xadrez. É a melhor jogadora de todos os tempos. Na época das irmãs Polgar a equipe húngara era imbatível, ganhou todas as olimpíadas. Elas eram três irmãs: Judit, Sofia e Suzan Polgar. Elas eram muito fortes. Foram – para mim – as mulheres que melhor jogaram xadrez na história. E a Judit foi a melhor de todas.

NG: Quais são os seus planos para o futuro?

RQ: Estou tentando subir a pontuação, jogando os torneios, tentando subir o FIDE. Agora eu estou com 2176, estou tentando passar 2200 que, já é mais perto de 2300… Cem pontos. E seu eu conseguir passar, eu me esforçar para chegar em 2300 e, daí para frente…

É o primeiro objetivo, né? Conseguir o título de Mestre FIDE. Depois a gente estuda, faz o que tiver que fazer para conseguir os outros dois.

NG: Quais os grandes jogadores que você já enfrentou?

RQ: Já joguei contra jogadores bem fortes. Já joguei contra Giovanni Vescovi que, é o atual número um do Brasil. Perdi para ele que, jogou eximiamente bem. Ele é Grande Mestre, né?

Também joguei contra um Grande Mestre Cubano, ano passado, chamado Holden Hernandez. Joguei contra um Mestre Internacional do Rio de Janeiro, Diego Di Berardino, de quem eu gosto muito do estilo de jogo .

Os torneios são abertos, joga muita gente, e há muitas chances de enfrentar esses caras.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

7 Responses to Entrevista com Renato Quintiliano, campeão brasileiro de xadrez sub-16/2008

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  6. José Gomes says:

    Que entrevista interessante!
    Para quem gosta de xadrez é um “prato cheio”! Esse rapaz é muito inteligente e tornou a entrevista muito legal, explicando alguns conceitos que os leigos no xadrez ainda não conhecem.
    Achei muito interessante quando ele conta a história de como ele começou a jogar. Às vezes as pessoas pensam que os grandes jogadores de xadrez já nascem jogando, mas ele demonstrou com sua história que não é bem assim. Ele começou a jogar xadrez porque era uma negação no ping pongue! Imagina se esse garoto fosse bom no tênis de mesa, será que ele teria sido campeão brasileiro?
    Também gostei de quando ele falou que o xadrez faz bem para a sociedade, que o jogo une pessoas de situações sociais diferentes. Acho que esta ideia deve ser divulgada nas escolas, principalmente. Isso porque é preciso quebrar os preconceitos que, em muitas vezes, inibem as crianças a gostarem do jogo. Frases como “xadrez é pra nerd”, “xadrez é pra riquinho”, por exemplo, são muito comuns nas escolas e isso às vezes torna difícil fazer uma criança aprender a gostar do xadrez. A molecada prefere o futebol, sem hesitar.
    Aliás, que garoto não sonhou em ser jogador de futebol neste país? Nada contra, o futebol já é um esporte que se confunde com a história do país, com a identidade nacional e por conta disso ganhou sua importância na sociedade. Mas vejo que o futebol não está servindo para formar bons cidadãos. Formamos bons jogadores, mas só isso. Por enquanto, ainda não vi o futebol como um esporte que tem ajudado na formação do caráter e na própria formação educacional dos jovens e das crianças, principalmente depois que este esporte se tornou uma grande empresa que faz circular milhões e milhões de dólares, levando muita gente a ter lucro fácil apostando no talento da molecada, mas sem ter a mínima preocupação com a formação dessa criança, desse jovem.
    Por outro lado, o xadrez, por essência, forma a pessoa intelectualmente. Ele insere o indivíduo em um meio que favorece a reflexão não só sobre o jogo, mas também dá ferramentas para que a pessoa saiba pensar em sua sociedade e para que o jogador aprenda a lidar com seus problemas. Por isso, vejo o xadrez como um esporte necessário. E derrubar os preconceitos que existem sobre ele é essencial para que seja possível estimular as crianças e os jovens a começarem a praticá-lo.
    Torço para que o esporte consiga ganhar mais espaço nos meios de comunicação e que garotos como este campeão que foi entrevistado mostrem à sociedade a importância deste esporte, deste jogo, deste entretenimento, deste educador.

    • Naldo says:

      Muito obrigado por enriquecer esse blog com esse excelente comentário, José Gomes. Fique de olho porque em breve postarei mais entrevistas com o pai de uma jogadora e com outros jogadores de xadrez, inclusive Giovanni Vescovi, o número 1 do Brasil e 127° do mundo.

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