Roberto Stelling dá as dicas para quem quer ser árbitro de xadrez


Roberto Stelling é o quinto da esquerda para a direita. Foto: Naldo Gomes

Roberto Stelling é o quinto da esquerda para a direita. Foto: Naldo Gomes

O árbitro e solucionista de xadrez, Roberto Stelling, concedeu a entrevista abaixo ao blog Jornalismo Freelance no dia 24 de abril de 2010, no Clube de Xadrez de São Paulo. Na ocasião, estava em disputa no local o Pré-Olímpico de Xadrez Feminino, vencido por Juliana Terao. 

Naldo Gomes: Como funciona a arbitragem no xadrez?

Roberto Stelling: A arbitragem no xadrez tem como objetivo garantir o bom andamento de uma competição. Os jogadores, em princípio, sabem regras de jogo, sabem regras de comportamento e a função do árbitro é apenas garantir, durante o andamento do torneio, que a competição seja tranquila, sem problemas, sem dificuldades.

NG: O que é preciso para uma pessoa se tornar árbitra de xadrez?

RS: Precisa fazer primeiro, um curso da Confederação Brasileira de Xadrez (CBX). Esse curso é preparatório e [você se forma] como árbitro auxiliar. Depois de dois anos trabalhando como árbitro auxiliar e tendo atuado regularmente, você pode passar a ser um árbitro regional. O árbitro regional, esse sim, já pode ser o árbitro de uma competição sem ser necessário outro árbitro principal… Já pode trabalhar como árbitro principal.

Um árbitro auxiliar, que é o primeiro degrau, só pode atuar como árbitro auxiliar e precisa de um árbitro principal. Depois de dois anos como árbitro regional você pode se candidatar, se tiver sido ativo o suficiente, a árbitro nacional. E a partir daí, são mais dois outros níveis, são chamados de Árbitro Fide e Árbitro Internacional, que requerem prática durante determinado tempo e cumprimento de normas. É necessário arbitrar como Árbitro Principal ou em torneios valendo rating e tem umas normas que precisam ser cumpridas para chegar a Árbitro Fide e Árbitro Internacional.

Assista essa entrevista:

E dentro de Árbitro Internacional ainda há qualificações. Um Árbitro Internacional leva, talvez, uns dez anos para se formar completamente. E ainda assim, é preciso que você fale, pelo menos, três idiomas. Um idioma nativo e dois idiomas da FIDE.

NG: Que tipo de benefício o xadrez pode trazer individualmente e coletivamente?

RS: Vários benefícios. Uma das coisas interessantes do xadrez é que você não precisa jogar xadrez bem ou chegar a jogar xadrez bem. Não é preciso ter sucesso como jogador de xadrez para ter benefícios pessoais. A partida de xadrez pode servir como analogia para várias situações. Por exemplo, a posição inicial do jogo de xadrez, ela é o início de um negócio, é o início da vida, é a posição onde você começa a se prepara para alguma coisa.

O jogo de xadrez requer raciocínio, estratégia, compreensão, cálculo. Os jogadores de xadrez têm uma visão espacial bem desenvolvida pelas próprias características do jogo. Você aprende, com o tempo, que uma peça não ganha sozinha. Você precisa que as peças colaborem. O xadrez te ensina a necessidade da colaboração na sua vida pessoal. Você também percebe que, não existem… Você é sempre muito punido pelos seus próprios erros. Então, se você faz um lance errado, com frequência, o seu adversário encontra o seu erro e pode até te dar mate.

Nas crianças, por exemplo, traz muito esse nexo de causa e consequência, em que você paga pelos seus próprios erros. Mas que, também, o estudo, leva à excelência.

Então, há uma quantidade grande de valores que podem ser ensinados usando o jogo de xadrez como paradigma. E há uma quantidade grande de características que acabam sendo levadas pela própria pessoa a nível individual.
Outra característica, por exemplo, é que, você deve ter visto aqui jogadores em partidas relâmpagos, que são partidas jogadas em cinco minutos. Quem joga xadrez com frequência aprende a reagir sob pressão. Reagir num ambiente hostil, onde você tem o seu adversário, você tem que fazer os seus lances corretamente e rapidamente, é quando você aprende a reagir sob pressão.

NG: Entre os jogadores do presente e do passado, qual deles você admira mais?

RS: Como jogador, por resultados, o Kasparov. Não existe a menor dúvida. Mas como indivíduo, como pessoa completa, ao mesmo tempo como jogador e compositor, Richard Reti, que foi um dos melhores jogadores do mundo de sua época e um grande compositor. Ele viveu muito além das linhas de um tabuleiro.

NG: A gente sabe que durante uma partida passa um turbilhão de pensamentos e emoções na cabeça de um jogador de xadrez. E a cabeça de um árbitro, como fica?

RS: O emocional de um árbitro deve evoluir de acordo com a sua própria formação como árbitro. Um árbitro auxiliar, no primeiro torneio que ele está apitando, tende a ficar nervoso, apenas por inexperiência. Mas nos momentos importantes, que são os momentos de final de partida… É interessante que, o momento em que você passa a ficar um pouco mais tenso, é o momento em que os jogadores ficam mais tensos. O árbitro sente essa emoção, sente o efeito dessa emoção do jogador, no seu próprio comportamento. E se ele souber se separar desse problema, ele é a possível solução desse problema. E se ele se envolver nessas emoções pode acabar atrapalhando o resultado final.

O objetivo do árbitro é garantir que a competição seja a mais tranquila possível. Mas há momentos naturais do jogo, momentos críticos, quando se espera e se exige do árbitro essa isenção emocional.

O árbitro não pode ter inimigos, não pode reagir como se tivesse relações pessoais. Ele tem que ser impessoal e o menos emotivo possível.

NG: Tem algo que você acha que mereceria uma resposta e que não foi perguntado?

RS: Bom. No meu caso em particular, sim. Porque além de ser jogador de xadrez eu sou problemista. Eu me apaixonei pelo jogo de xadrez através de solução de problemas de xadrez, por intermédio do meu mentor, Felix Sonnenfeld. Ele é o único bi-campeão mundial em atividades relacionadas ao xadrez. Ele ganhou dois torneios mundiais de composição de problemas de xadrez, foi sócio fundador da UBP. A UBP faz 50 anos esse ano.

Sonnenfeld foi verbete da Enciclopédia Britânica. Foi um dos primeiros jogadores de xadrez a ser verbete dessa enciclopédia. Então, há todo um lado, um universo de beleza, emoção e arte num jogo de xadrez que é expresso através de problemas de composição e que no Brasil, são todos herdeiros desse homem, Felix Sonnenfeld.

Acho que é importante prestar um tributo ao Felix que faleceu recentemente. Ele nasceu em 1910 e faria cem anos esse ano. Ele foi uma espécie de, não somente um mentor, mas pai espiritual dentro do xadrez, que eu tive a felicidade de conhecer durante a minha formação.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

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