A “jornada do herói” como ferramenta para jornalistas


Muito bem, amigo e amiga, estudante de jornalismo e jornalista freelance, pegue papel e caneta, vamos estudar um pouco mais a jornada do herói. 

Se você ainda não leu os demais posts referentes a este assunto, saiba que: 

• As análises de histórias realizadas nesse blog são construídas com base no livro “Jornada do Herói – A estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo”, da professora Mônica Martinez que, por sua vez, inspirou-se – entre outras fontes – nos estudos do mitólogo norte-americano, Joseph Campbell. Para ler a resenha deste livro, clique aqui

• Para ler uma análise da história de Jesus, clique aqui

• Para baixar a régua mitológica com o passo-a-passo da jornada do herói, clique aqui

 

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AMYR KLINK – MAR SEM FIM 

  

Uma volta ao mundo pelo mar sem fim

O mar sem fim. Fonte: http://mapas.geographicguide.net

Desta vez, vamos analisar uma história do navegador brasileiro, Amyr Khan Klink que, em 1999, concluiu uma volta ao mundo em latitudes altas. A história dessa façanha é contada no documentário “Amyr Klink – Mar Sem Fim”, do diretor Breno Silveira, lançado no mercado em formato DVD pela revista Viagem, da Editora Abril. 

Ao longo da análise, tente concluir as propostas de exercício. 

O conteúdo entre os sinais [ e ] se refere à notas do autor desse blog.

 

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1º PASSO: COTIDIANO 

Mostra o dia-a-dia do personagem, a rotina, os afazeres cotidianos que, depois, vão contrastar com o ambiente rude de testes, aliados e inimigos. 

Amyr Klink já havia atravessado o Oceano Atlântico remando em 1984. Seis anos depois, fez uma viagem à Antártica, sozinho, onde permaneceu um ano com um barco, propositalmente, preso ao gelo. Vivia, agora, numa casinha na Baia de Jurumirim, em Paraty, com sua mulher, Marina Bandeira, e as duas filhas, Laura e Tamara: 

“Eu acho que [o barco] Paraty gosta daqui também. O barco passa anos a fio, às vezes, aqui. Aqui era a casa de uma antiga fazenda e que ruiu. E aí há uns 17 anos atrás a gente reconstruiu a casa, mas como a gente diz, com as próprias mãos. Ficou uma casinha mais leve, meio vagabunda, mas a gente gosta muito daqui”. – Amyr Klink 

Exercício 1: Descreva um personagem qualquer – inventado ou real – em seu cotidiano, em seus afazeres diários, em sua rotina. Use 350 palavras para esse exercício. Se estiver usando o Word, poderá visualizar a quantidade de palavras na parte inferior, lado esquerdo, da janela em que estiver escrevendo. 

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2º PASSO: CHAMADO À AVENTURA 

O personagem principal da história, o protagonista – que pode ser uma pessoa ou um grupo de indivíduos – recebe um chamado que quebra a rotina do seu dia-a-dia. 

Amyr Klink sente esse chamado à aventura dentro dele porque tem uma vontade inata em descobrir, mas em outras histórias, isso pode ser desencadeado por motivos externos. Depois de atravessar o Atlântico e morar um ano na Antártica, sozinho, Amyr tem agora, diante de si, a meta de contornar o planeta pela rota mais perigosa, em torno da Antártica. Isso quebra a sua rotina feliz na Baia de Jurumirim. 

“É muito fácil, hoje, ver lugares espetaculares no cinema, na televisão. E eu sinto que isso acomoda, muitas vezes, essa vontade de descobrir”. – Amyr Klink 

Exercício 2: Escreva um texto em que o seu personagem descrito no exercício 1 recebe um chamado que lhe tira da rotina. Por exemplo, um parente vem de longe e lhe convida para pular de pára-quedas. Use 350 palavras. 

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3º PASSO: RECUSA DO CHAMADO 

Momento em que obstáculos podem surgir e impedir que o protagonista aceite o chamado à aventura. É muito difícil deixar a rotina – principalmente quando ela é uma rotina feliz – e se colocar a caminho de uma aventura em que há risco de morte. 

Amyr Klink, agora, tinha raízes que poderiam fazê-lo pensar melhor a respeito de sua volta ao mundo. Como diz sua mulher: 

“Eu acho que viajar e me deixar em casa era uma situação. Mas agora,viajar e deixar as meninas em casa é diferente. Eu acho que ele criou uma raiz que antes ele não tinha”. – Marina Bandeira 

 
Exercício 3: O seu personagem que, tinha uma rotina feliz e aconchegante, agora se vê diante da perigosa aventura de pular de um avião amarrado a uma tira de nylon, um pára-quedas. Que tipo de medo o seu personagem sentiu? Descreva a recusa ao chamado em 350 palavras. 

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4º PASSO: TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR 

O personagem assimilou o medo de partir e entendeu que não passa de um medo irracional. 

Amyr Klink se despede da mulher e filhas e põe seu barco na água em 31 de outubro de 1998. Agora, ele estava em busca de seu chamado interior, no encalço de seus sonhos, partindo para uma incrível volta ao mundo em latitudes altas, em torno da Antártica. 

“Passamos a última noite na casinha de Jurumirim. Os lampiões foram apagados bem cedo e na manhã seguinte, as gêmeas e a Marina embarcaram rumo à cidade. Melhor assim, sem despedidas nem palavras. Um abraço apertado em cada uma, um aceno nervoso e o desejo silencioso de encontrá-las, quem sabe, perto do equinócio de outono quando as gêmeas fariam seu segundo aniversário”. – Amyr Klink 

Exercício 4: O seu personagem assimila o medo e compreende que deve seguir em frente, pois, do contrário, permanecerá eternamente em sua rotina. Como o seu personagem conseguiu superar o medo? Alguém o incentivou ou ele conseguiu cor suas próprias forças? Como ele deu o passo para se colocar à caminho? Descreva esse passo em 350 palavras. 

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5º PASSO: TESTES, ALIADOS E INIMIGOS 

O protagonista está agora no caminho que mudará para sempre o seu modo de ver o mundo. Aqui, ele enfrentará desafios que o prepararão para a morte – simbólica ou real – do corpo ou de seu antigo modo de pensar. 

E Amyr Klink enfrentou os mares mais agitados e gelados que existem, além do trânsito de gelo, neblinas, nevascas, sem o auxílio de ninguém, sem períodos de descanso, durante 88 dias. 

“Tive um puta medo. Medo de perder o controle que, na verdade, é o medo de quem é responsável. Você é o responsável mor por tudo o que está acontecendo”. – Amyr Klink 

Exercício 5: Quais os desafios que o seu personagem enfrenta antes de pular efetivamente de pára-quedas? Como ele se prepara? Como é o treinamento? Quais pessoas ele conhece? Quais são os obstáculos? O seu personagem tem medo de altura? Descreva essa etapa em 700 palavras. 

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6º PASSO: CAVERNA PROFUNDA 

Uma preparação para a provação que virá adiante. Trata-se do lugar onde o protagonista se concentra para enfrentar a situação mais difícil de sua jornada. É como numa final de Copa do Mundo, quando os jogadores estão na boca do túnel, profundamente concentrados para entrar em campo e combater na batalha final. 

Amyr Klink já passava da metade de sua epopéia e os obstáculos tinham sido inúmeros. Agora, ele se concentrava para o mais difícil deles: 

“Até o final do ano [1998] da viagem, eu estava cada vez mais me afastando de casa e isso é uma coisa evidente numa volta ao mundo. Você sabe que ainda falta muito e que a cada dia você está indo para mais longe. Até um ponto muito especial que, foi uma espécie de ápice da viagem, onde culminou tudo e o tempo começou a piorar. Veio piorando, desde o dia 26 de dezembro, e foi piorando, piorando, piorando… Até o bendito dia do nhoque que deu errado. O nhoque voou na parede, tudo na cozinha voou e eu achei um mau presságio o nhoque da sorte esparramar no chão com ferramentas e panelas. Então, eu pensei: Meu Deus do céu está acabando tudo, está acabando o ano, está acabando a minha paciência, está acabando o tempo bom, está acabando a metade da Terra, o Oceano Índico, está acabando e está tudo piorando. E você chega num ponto em que você fala: Não é possível que vai piorar mais. E piorou, piorou bem mais”. – Amyr Klink 

Exercício 6: Agora, o seu personagem está se preparando para pular de pára-quedas. Ele está na caverna profunda, concentrado. O avião subiu e o personagem está suando frio. São os últimos momentos antes da provação suprema. Conte como o seu personagem reage nessa etapa usando 350 palavras. 

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7º PASSO: PROVAÇÃO SUPREMA 

O nome já diz, não há provação maior, durante a jornada, do que esta. O personagem passa pelo maior apuro. Como se diz na linguagem popular, um perrengue do qual ele não sairá vivo. E essa morte pode ser simbólica ou real. É Jesus na cruz, Joana Dark na fogueira, ou o indivíduo que está, por exemplo, numa mesa de operação. 

No caso de Amyr Klink, a provação suprema foi enfrentar a maior tempestade da região em 54 anos: 

“Entre o dia 28 de dezembro e o dia 2 de janeiro, aconteceu uma sucessão… Eram depressões muito violentas e isso acabou originando a famosa tempestade que destruiu a frotilha da fragata Sydney-Hobart e que é considerada a tempestade do século. E foi uma tragédia porque morreu muita gente, muitos barcos quebraram. Sessenta e poucos barcos quebraram, seis velejadores desapareceram e eu não sabia que estava acontecendo tudo isso. Eu vivi esse privilégio da ignorância, de não saber que estava mesmo acontecendo um fenômeno muito especial. Foi a maior depressão em 54 anos. E pela primeira vez, no final do ano, eu tive que, de fato, assumir o governo do barco e acabei ficando quase 50 horas no leme” – Amyr Klink 

  

“O mar ficou tão caótico, cresceu tanto, eu não conseguia mais manter uma direção inteligente. As ondas não eram mais regulares, eram ondas cruzadas. E algumas vezes o Paraty deitou e aí passou a ser uma questão de sobrevivência, não deixar o barco capotar. E aí você sente um cansaço por antecipação, sabendo que não vai poder dormir nas próximas horas” – Amyr Klink 

  

“Eu fiquei muito preocupada porque eu sabia o tamanho das ondas que ele estava enfrentando e o fato dele não se manifestar, dele não telefonar, não dar notícias, e as pessoas que falavam comigo não tinhas informações dele. Isso me preocupava” – Marina Bandeira 

Exercício 7: O seu personagem dá um passo e está fora do avião, flutuando. O medo de altura precisa ser vencido e quando ele chegar ao chão esse medo terá ficado para trás. A morte do personagem será simbólica. De súbito, o personagem desmaia de medo e o instrutor abre o pára-quedas. Conte como foi a provação suprema do seu personagem em 350. 

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8º PASSO: RESSURREIÇÃO 

Nesse ponto, a sequência dessa jornada se diferencia da sequência da régua mitológica. Mas isso é perfeitamente normal, já que a régua serve apenas como uma referência. Assim, depois da morte, simbólica ou real, o personagem ressuscita. Mas quando ele faz isso, já não é mais o mesmo. Toda a experiência de sua jornada e – principalmente a provação suprema – o transforma numa outra pessoa, mais vivida, mais experiente. 

O tempo ruim passou e o sol renasce. Amyr Klink, 4.000 milhas e 88 dias depois de ter iniciado a volta ao mundo, chega à Geórgia do Sul e retoma a comunicação com os seus amigos e parentes. 

“O dia que ele me ligou ele falou que tinha sobrevivido a 24 horas de tempestade, ele ficou dois dias sem dormir. Bom, sobreviveu, graças a Deus”. – Marina Bandeira 

  

“O sol nasceu e eu atraquei as 7h30”. – Amyr Klink 

Exercício 8: O pára-quedas abriu e o seu personagem acorda. Ao ver a paisagem do alto, começa a saborear o voo. De repente, ele percebe que o seu medo era infantil e ele passa a mudar o pensamento. Quando toca o chão, ele já é outra pessoa. A experiência o modificou completamente. Conte em 350 palavras a ressurreição do seu personagem. 

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9º PASSO: CAMINHO DE VOLTA 

Hora de reunir forças e voltar para casa. O pior já passou, agora é se reorganizar para poder compartilhar o que viu com os demais. 

A missão estava cumprida, o sonho concluído de maneira magnífica. Então, Amyr sente saudades de sua mulher e filhas e entende que é hora de voltar para casa: 

“A volta ao mundo estava completa, eu já tinha agarrado o meu troféu imaginário. Já estava com os sacos cheios de moedas imaginárias de ouro. Mas eu tinha um caminho para chegar até em casa e aí você tem consciência de que não adianta realizar os teus projetos e fazer coisas espetaculares se a gente não volta para a porta de casa”. – Amyr Klink 

  

“Estou agora, preocupado em chegar inteiro em casa e estou morrendo de saudades das meninas. Queria tentar passar a páscoa no Brasil e eu acredito que vai dar”. – Amyr Klink 

Exercício 9: Conte a volta para casa depois do salto de pára-quedas. Seu personagem volta de carro? Ônibus? Avião? No que ele está pensando? Use 350 palavras para contar essa etapa. 

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10º PASSO: ENCONTRO COM A DEUSA 

Essa etapa não significa um encontro com uma divindade, mas com a contraparte. Para os homens, sua contraparte feminina. Para as mulheres, sua contraparte masculina. Mas esse encontro se dá sob uma perspectiva diferente das anteriores já que, agora, o protagonista está completamente mudado pela experiência que viveu. Esse encontro com a contraparte é muito bem exposto no documentário, uma das cenas mais emocionantes da jornada de Amyr Klink: 

“Pronto, firme no Brasil. Fiquei de pé e no funda da baia, na beira do mar, no mesmo pedaço de areia de onde parti em outubro, descobri a Marina com os braços cheios de meninas, imóveis, lindas de morrer, chapeuzinhos brancos, a Laura e a Tamara, uma em cada braço. Tanto mar, em vez de nos separar, nos uniu” – Amyr Klink 

Exercício 10: Como é o encontro com a contraparte? Depois de saltar, como o seu personagem encontra-se com a namorada? Ou com a mãe? Ou com suas filhas, se ele as tiver? Como isso influencia o encontro? Que tipo de sentimento ele experimenta? 

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11º PASSO: RECOMPENSA 

 
Depois de enfrentar os piores perigos, morrer e ressuscitar, o personagem ganha uma recompensa. 

Amyr Klink é premiado por uma revista inglesa. Segundo um amigo, o prêmio é como se fosse um Prêmio Nobel da vela: 

“Existe na Inglaterra uma revista que, tem um conselho que, escolhe os maiores feitos de vela no mundo. E esse ano, essa revista falava que o Amyr tinha ganhado essa medalha que, por sinal, foi a segunda medalha dele. (…) Então, é o maior prêmio, nós poderíamos talvez [dizer que se trata do] Prêmio Nobel da vela”. – Fábio Tozzi, médico e velejador 

Exercício 11: Qual prêmio o seu personagem ganhou? Ele perdeu o medo da altura? Dominou a técnica do pára-quedismo? Assimilou os treinamentos? Ganhou o respeito de seus amigos? Ganhou algo concreto como uma medalha? Conte como foi em 350 palavras. 

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12º PASSO: RETORNO COM O ELIXIR 

Compartilhar a experiência com a comunidade, com a sociedade, é a função do retorno com o elixir. 

Amyr Klink comenta como conseguiu a façanha de dar a volta ao mundo por latitudes altas e compartilha com o mundo os seus novos conhecimentos, a sua experiência: 

“É uma negociação que envolve respeito mútuo o tempo inteiro. Você não pode impor a tua vontade. Que bom seria se o vento mudasse e a gente pudesse continuar para leste, mas não dá agora. E dá aquela ansiedade. E esse exercício de negociar com as ondas, conversar com o mar, eu acho que é a grande qualidade de um bom navegador”. – Amyr Klink 

  

“Você é obrigado a se equilibrar. Você está em cima da lâmina de uma faca e você simplesmente sabe que não pode cair”. – Amyr Klink 

  

“Você está surfando numa onda, sei lá, com 15 metros e você vai descendo, descendo e de repente lá no fundo vem vindo outra de lado. Mas da onde pode vir? E se você não está lá para ver isso na última hora e fazer a correção, deita o barco, arrebenta tudo”. – Amyr Klink 

Exercício 12: Conte como o seu personagem compartilha sua experiência com as outras pessoas. Com que empolgação ele o faz? Ele convence outras pessoas a saltarem também? Escreva o final dessa história em 350 palavras. 

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

É isso! Chegamos ao final desse segundo tutorial sobre a jornada do herói. Esse sistema é perfeito para escrever perfis. Jornalistas literários devem dominar a jornada do herói porque ela casa muito bem com histórias interpretativas que envolvem mais do que somente o lide. O jornalista freelance também deve treinar bastante a utilização da jornada para poder fazer bonito quando for requisitado, por exemplo, para escrever um livro, um perfil, uma história ou mesmo uma biografia para algum cliente muito especial.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

3 Responses to A “jornada do herói” como ferramenta para jornalistas

  1. Pingback: Como escrever uma história coerente utilizando a jornada do herói « Jornalismo Freelance

  2. Oz says:

    Sensacional !! Opa, sempre passo por aqui para desbravar novos lugares e ampliar o conhecimento com o super Naldo !! Parabéns !

    • Naldo says:

      Fala Oz, beleza? Muito obrigado pela visita. Grande abraço!

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