Como escrever uma história coerente utilizando a jornada do herói


A jornada do herói é uma estrutura mítica descoberta pelo mitólogo norte-americano Joseph Campbell. Inicialmente com 17 etapas, foi adaptada ao cinema por Christopher Vogler, que a reduziu para 12 fases. Os 12 passos desse tutorial, da maneira como estão posicionados na régua ao lado, foram encontrados no livro da jornalista Monica Martinez: “Jornada do Herói – A estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo”, que é uma das fontes para esse texto.

Para baixar a régua mitológica, clique aqui.

Para ler a resenha do livro de Monica Martinez, clique aqui.

Leia, ainda, o post: “A jornada do herói como ferramenta para jornalistas” e veja uma análise mitológica de uma viagem do navegador brasileiro, Amyr Klink.

Campbell descobriu esse padrão nas entrelinhas dos mitos e histórias de diversas religiões do mundo. Não se trata, contudo, de uma estrutura fixa e serve apenas como uma referência, de modo que alguns passos podem acontecer antes dos outros. É o que veremos ao analisar uma das histórias mais famosas de todos os tempos, a vida de Jesus Cristo.

Antes, vamos refletir sobre o que é o mito. Para muitas pessoas, eles não passam de histórias da fantasia humana. Mas essa ideia cai por terra quando percebemos que as etapas da jornada do herói acontecem com frequência na nossa própria vida. Além disso, muitas das passagens bíblicas da vida de Jesus podem ser confirmadas historicamente.

Agora, vamos aprender como construir uma história no molde mitológico. Pegue um pedaço de papel e uma caneta e, ao ler o passo-a-passo, tente produzir uma estrutura para uma história inventada ou uma que tenha realmente acontecido:

Passo 1: Cotidiano – Essa primeira fase tem a função de apresentar o herói, protagonista ou pessoa – como quiser chamar – na sua vida rotineira, com o objetivo de criar um contraste com as provações que virão no futuro. Então, esse passo traz elementos do cotidiano com algumas pitadas das provações que o herói terá que enfrentar mais tarde.

O cotidiano na história de Jesus: Jesus sabe que é o Filho de Deus e que terá que cumprir uma missão muito difícil. João Batista já o havia anunciado como “O Cordeiro de Deus”. Mas nesse momento Ele ainda é um carpinteiro que vive com seus pais, Maria e José. De vez em quando vai ao templo, em Jerusalém, para refletir com os sacerdotes.

Jesus carpinteiro. Fonte: www.cantodapaz.com.br

 

Passo 2: Chamado à aventura – O chamado à aventura é uma ruptura com a rotina do mundo cotidiano. Algo de diferente acontece e dispara um gatilho na alma do herói, que sente o impulso de escapar do seu mundo velho para se aventurar numa experiência cheia de desafios e possibilidades.

O chamado à aventura na história de Jesus: É dia de casamento no povoado de Caná. Jesus, sua mãe e seus discípulos haviam sido convidados. No meio da festa, quando acabou o vinho, Maria pediu para que seu Filho fizesse um milagre, o que seria o primeiro de sua vida. Se Ele o fizesse, seria um acontecimento que o tiraria para sempre de sua rotina diária e o iniciaria numa vida pública, um caminho sem volta.

Bodas de Caná. Fonte: www.aveluz.com

 

Passo 3: Recusa do chamado – Diante da possibilidade de sair do conforto que a rotina proporciona, há sempre um momento de ponderação, de dúvida e as vezes até, de medo. Então, o herói recusa o chamado e é tentado a não prosseguir. Esse momento de negação acontece porque a pessoa sente que as dificuldades da aventura serão muito pesadas e ela teme não conseguir suportar.

A recusa do chamado na história de Jesus: Jesus é tentado a não realizar o milagre da transformação da água em vinho. Ele diz a sua mãe: – Mulher, ainda não chegou a minha hora. Jesus sabe que esse evento o iniciaria em sua caminhada até a cruz e é, com certeza, uma coisa de meter medo. É também para se pensar: Qual de nós não recusaria isso?

Jesus esquiva ao dizer que ainda não era a sua hora. Fonte: pejoaocladiassermoes.blogspot.com

 

Passo 4: Travessia do primeiro limiar – O herói precisa deixar o conforto da rotina para trás e prosseguir em sua caminhada. Se a pessoa está muito temerária, pode acontecer de surgir alguém, algum mentor, que o ajude a ultrapassar a primeira barreira.

A travessia do primeiro limiar na história de Jesus: Maria pede para que os empregados da festa de casamento em Caná fizessem tudo o que seu Filho os solicitasse. Então, Jesus toma coragem e pede para que os empregados encham alguns jarros com água. Depois disso, ele transforma a água em vinho. Pela primeira vez na história, Jesus revela a sua natureza divina e isso o insere em sua jornada, como disse antes, um caminho sem volta.

Jesus transforma a água em vinho. Fonte: aprendendoaouviropai.wordpress.com

 

Passo 5: Testes, aliados e inimigos – Uma vez ultrapassada a primeira barreira, o herói se põe no caminho que mudará toda a sua vida. Ele se depara com diversos tipos de testes, se põe em perigo, encontra aliados e faz inimigos.

Os testes, aliados e inimigos na história de Jesus: Jesus faz aliados como uma mulher samaritana perto de um poço, um funcionário público e seu filho, um paralítico, uma mulher que é apanhada em adultério. Surgem inimigos que querem matá-lo, os fariseus mandam guardas para prendê-lo, os líderes judeus não creem Nele. Jesus passa por muitos testes como ter que alimentar uma multidão, curar um cego, andar em cima da água e ressuscitar um morto chamado Lázaro.

Jesus anda sobre a água. Fonte: preberjamil.wordpress.com

 

Passo 6: Caverna profunda – Nesse ponto, o herói faz as preparações finais para o seu maior desafio, que virá adiante. Amigos muito bons podem literalmente sumir ao perceber o tamanho da enrascada em que se meteram. O personagem entra em um processo de concentração, pois ele está a um passo de provar o gosto da morte.

A caverna profunda na história de Jesus: Jesus é preso, interrogado e flagelado. Pedro, um de seus maiores apóstolos o nega por três vezes.

Jesus é interrogado. Fonte: discernimentocristao.wordpress.com

 

Passo 7: Provação suprema – O herói enfrenta a morte, que também pode ser experimentada numa batalha contra o seu pior medo. Há confronto com os inimigos que são, na verdade, a representação desses medos.

A provação suprema na história de Jesus: Agora, Jesus precisa provar que a vida eterna existe para aqueles que creem em Deus. E para fazer isso é necessário morrer. Logo, os sacerdotes e os fariseus fazem com que Jesus carregue uma cruz até o Monte Calvário. Entre os motivos está o fato de Jesus afirmar que é o Filho de Deus. Então, no Calvário, soldados romanos o pregam numa cruz. No final da crucificação, Jesus sente sede e lhe dão uma esponja embebida em vinagre. Depois disso, Ele morreu. Um amigo o enrolou em lençóis brancos e depois o colocou num túmulo.

A crucificação. Fonte: mathbrian.blogspot.com

 

Passo 8: Ressurreição – Aqui, para adequar a explicação do passo-a-passo com a história de Jesus, vamos fazer uma mudança das etapas descritas na régua mitológica. Como foi dito no início, a régua serve apenas como referência, e as fases podem ter pequenas modificações em sua sequencia. A ressurreição é o momento da história em que o personagem mostra uma nova personalidade. Ele deixa seu corpo e atitudes velhas para se revestir de uma nova pessoa. O herói não é mais o mesmo, pois a experiência da morte o modifica de maneira radical. Quando ressuscita, algo desperta no personagem e ele percebe que tudo mudou.

A ressurreição na história de Jesus: Uma pedra que fechava o túmulo é misteriosamente removida. Num domingo de manhã, Maria Madalena, Salomé, e a mãe de Tiago, chamada Maria, vão ao túmulo para perfumar o corpo de Jesus, mas Ele não está mais lá. Jesus ressuscitou e seu corpo não é mais o mesmo. Tudo Nele está mudado e renovado.

A ressurreição. Fonte: costa_hs.blog.uol.com.br

 

Passo 9: Recompensa – Quando o protagonista domina algum aspecto de sua própria personalidade, que antes era uma perspectiva muito distante, isso transforma-se numa dádiva. Vencer esse aspecto e transformar-se num novo ser é que caracteriza a recompensa.

A recompensa na história de Jesus: Ao morrer e três dias depois ressuscitar, Jesus descobre a vida eterna. Depois de vencer o mundo, Ele descobre uma nova perspectiva de vida, isto é: esta vida não é um fim, mas um meio.

A recompensa. Fonte: www.rainha.notredame.org.br

 

Passo 10: Encontro com a deusa – Esse passo não significa que o encontro se dá com uma deusa ou um deus, ou qualquer coisa que tenha algum aspecto divino. Este é o encontro com a contraparte. No caso de um herói, com a contraparte feminina. No caso de uma heroína, com a contraparte masculina. Então, o protagonista deixa de repetir, por exemplo, a maneira antiga com que se relacionava com as pessoas. É mais ou menos a ideia de que, para saber que agora eu sou o açúcar, preciso sentir ou relembrar um pouco de como é o sal.

O encontro com a deusa na história de Jesus: A primeira pessoa para quem Jesus aparece é Maria Madalena, uma mulher de quem havia expulsado sete demônios. Maria está chorando na entrada do túmulo quando Jesus a interpela.  Jesus diz: – Maria, não me segure, pois ainda não subi para o meu Pai (…). Esse encontro se dá sob essa perspectiva: agora Jesus venceu o mundo e está ressuscitado. Torno a dizer que “O encontro com a deusa” é apenas uma maneira que Campbell encontrou para dizer que o (a) protagonista encontra-se com sua contraparte (feminina ou masculina) e isso se dá para que o herói ou heroína perceba como ele (a) próprio (a) mudou.

Jesus aparece a Maria Madalena. Fonte:  leioomundoassim.blogspot.com

 

Passo 11: Caminho de volta – O protagonista volta para o convívio dos seus antigos amigos. Isso acontece porque ele precisa compartilhar sua experiência e seu novo conhecimento com a sua comunidade.

O caminho de volta na história de Jesus: No mesmo domingo em que Jesus ressuscitou, dois de seus seguidores caminhavam para um povoado denominado Emaús. Nesse caminho, Jesus se aproxima e começa a conversar com eles sem que eles o reconhecessem. Então Jesus compartilha com eles a boa notícia.

O caminho de volta. Fonte: www.derradeirasgracas.com

 

Passo 12: Retorno com o elixir – O protagonista volta para o mundo rotineiro, mas agora ele tem a posse da cura para os males e para os medos que assolavam o inconsciente coletivo. Nesse momento, muitos compreendem o significado de toda a jornada, ao passo que outros, não conseguem entender ou custam para acreditar.

O retorno com o elixir na história de Jesus: Quando Jesus aparece para os seus discípulos, muitos pensam que ele é um fantasma. Alguns ficam assustados e outros se alegram. Jesus mostra suas mãos e pés como prova de que é Ele mesmo. Como alguns ainda custam a crer, Jesus abre a mente deles ao relembrar antigas escrituras que dizem que o Messias havia de morrer para ressuscitar no terceiro dia. Jesus vence o mundo e a morte e, então, Ele confia uma missão aos seus discípulos: A de anunciar essa história às gerações futuras para que toda a sociedade saiba como aproveitar essa oportunidade.

Jesus compartilha a experiência com os seus discípulos. Fonte: www.saosebastiaoportoalegre.org.br

 

Fique de olho nesse blog, pois em breve serão postadas análises de outras histórias, bem como outros tutoriais.

Leia textos relacionados:
– “A jornada do herói como ferramenta para jornalistas“;
– Resenha do livro “A Jornada do Herói” de Mônica Martinez: “A jornada do herói no jornalismo“.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

16 Responses to Como escrever uma história coerente utilizando a jornada do herói

  1. Pingback: Dicas de livros (Não RPG) para a criação de cenários | RPG News

  2. rcapanem says:

    Excelente texto. Obrigado por disponibilizá-lo.

  3. virginia izabel says:

    Bom dia, Naldo,

    estou fazendo um trabalho sobre a biografia de Campbell, e a estou fazendo através da Jornada do Herói que ele mesmo criou. Com ele não “recusou o chamado” fiz um paralelo com esses passos da história de Jesus.
    Mas aindia não domino bem o assunto, sobre mitologia , arquétipos etc…e gostaria de saber se vc tem idéia de alguém que pudesse me ajudar nesse sentido.
    Agradeço desde já sua atenção
    Virginia Izabel.

    (como recebo muitos emails solicito sua gentileza em colocar no item assunto: “jornada do herói” para eu não deletar porque não sei seu email.
    Muito obrigada).

    • Naldo says:

      Oi, Virginia, tudo bem?

      Há muitas pessoas que podem lhe ajudar nesse assunto. Uma delas é a professora Monica Martinez, que aplica cursos no Sindicato dos Jornalistas. Ela também atua na Fundação Joseph Campbell, Núcleo Granja Viana. Tente entrar em contato com ela por meio deste e-mail: nucleogranjavianajcf@gmail.com .

      A escritora Sonia Belloto mantém, já a alguns anos, uma escola de escrita criativa chamada Fábrica de Textos. Aí há um curso que ensina escritores a utilizarem a Jornada do Herói. Para entrar em contato com essa escola, ligue para 11 4227 2122.

      Na ECA USP há um professor chamado Edvaldo Pereira Lima que possui um livro sobre o assunto. Talvez você possa fazer um passeio até a Cidade Universitária, em São Paulo, e procurar por este professor nos corredores da referida escola de comunicação.

      Esperto ter lhe ajudado.

      Grande abraço!

  4. Pingback: Um ano de Jornalismo Freelance « Jornalismo Freelance

  5. larissa says:

    amar sem amar e complicado hem?

    • Naldo says:

      Larissa, não entendi sua observação. Pode explicar melhor?

  6. larissa says:

    muito bom eu mesma sou evangelica parabens para quem escreveu!!!!!!

    • Naldo says:

      Oi, Larissa. Muito obrigado pelo comentário.

  7. Amanda de Paula says:

    Muito bom, gostei!
    Boa fonte para pesquisas.
    Bjos,
    Amanda

    • Naldo says:

      Muito obrigado, Amanda. Em breve, novidades para essa sequência de posts sobre a jornada do herói.Estou pensando em analisar a história de uma heroína. Talvez a personagem bíblica chamada Estér. Abraço!

      • Amanda de Paula says:

        Ótima ideia! É sempre bom ter um exemplo para ilustrar a teoria, né?! Você conhece a Monica?

        Bjs!

        • Naldo says:

          A Monica foi minha professora de jornalismo no primeiro semestre, na UniSant’Anna. Abçs!

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