A jornada do herói no jornalismo


Livro traz conceitos usados nos filmes de Hollywood para o jornalismo, com o objetivo de resgatar o lado humano e aprofundar as coberturas jornalísticas
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O livro “Jornada do Herói – A Estrutura Narrativa Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo”, escrito pela doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Monica Martinez, é essencial para os aprendizes que quiserem se aventurar no território literário do jornalismo.

É o típico livro produzido em linguagem acadêmica, mas que não é tão acadêmico a ponto de ser considerado chato. Existe a parte científica e há também a parte humana que a complementa. É um tricô de informações muito bem feito, do tipo que só mesmo uma mulher poderia ter tecido.

Para quem nunca ouviu falar, a jornada do herói é o nome dado pelo mitólogo Joseph Campbell ao conjunto de padrões descobertos por ele no âmbito das histórias mitológicas.

No capítulo 1, Monica escreve sobre a questão do jornalismo tradicional versus o jornalismo literário. O primeiro traz as características do século XIX: é iluminista, materialista, reducionista, mecanicista e positivista. O segundo retrata a subjetividade das emoções humanas, bem como parte do ponto de vista do próprio jornalista que, por sua vez, constrói sua versão da verdade. No meio desse duelo é proposta a adaptação da biografia humana e da jornada do herói como uma nova forma de apurar e transmitir a realidade.

O segundo capítulo mostra como esse nascimento da imprensa num período dito racionalista excluiu a visão mágica do mito e, segundo a autora, esse acontecimento fez com que a ênfase recaísse sobre a forma, daí se explica a existência dos manuais de redação. E assim também, a jornada do herói pode ser confundida como uma narrativa imaginária, quando na verdade, ela capta a jornada humana de forma mais profunda que o jornalismo objetivo nascido no bojo da industrialização. Ao pensamento lógico e iluminista, a jornada do herói acrescenta a contribuição da arte, da religião e da filosofia. Neste capítulo também há um estudo sobre a figura do herói contemporâneo, que certamente, não é o mesmo dos antigos mitos ou antigas histórias.

A estrutura proposta no livro não é tão rígida quanto parece. Ela oferece algumas referências, mas isso não significa que os pilares devam ser seguidos a risca, isto é, não há necessidade de que as 12 etapas dessa estrutura sejam seguidas de forma linear. Esse aspecto, juntamente com a caracterização do herói são os temas do capítulo terceiro.

Em seguida, há uma explicação sobre a evolução da jornada desde a sua apresentação por Joseph Campbell em seu livro “O Herói de Mil Faces”, passando pela adaptação de Christopher Vogler para o cinema norte-americano em “Jornada do Escritor”. Depois disso, pelos experimentos do docente e pesquisador do Núcleo de Epistemologia de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Edvaldo Pereira Lima, para incorporação ao jornalismo, até este livro – de que trata esta resenha – que mostra todas as etapas e adaptações feitas pelos quatro estudiosos. Na versão de Monica essas etapas são: 1. Cotidiano; 2. Chamado à aventura; 3. Recusa; 4. Travessia do primeiro limiar; 5. Testes, aliados e inimigos; 6. Caverna Profunda; 7. Provação suprema; 8. Encontro com a deusa; 9. Recompensa; 10. Caminho de volta; 11. Ressurreição; 12. Retorno como elixir.

O livro também abre espaço para reflexões sobre como as mulheres se inserem nesse paradigma. Levanta questões como, por exemplo: Se a jornada do herói é um modelo voltado para o sexo masculino, para a figura do guerreiro, como, então, a mulher se insere nesse contexto? Nesse sentido, Monica apresenta o pensamento da psicóloga Maureen Murdock que sugeriu uma estrutura com 10 passos denominada jornada da heroína.

O método da biografia humana é o tema do capítulo quinto. Ancorado na antroposofia do filósofo austríaco Rudolf Steiner, esse esquema divide a vida humana em dez períodos de sete anos cada, para os quais são realizadas perguntas condutoras, de acordo com cada uma das fases. À medida que o entrevistado as responde, o jornalista começa a reconstruir sua história, mas com base na jornada do herói.

Os últimos dois capítulos são reservados para estudos de caso e sugestões. Monica realiza um experimento com 12 alunos de jornalismo da Universidade de Uberaba. Aplica os conceitos da jornada do herói, da biografia humana e parte para aulas práticas. Os textos produzidos por esses alunos são comentados no livro. Finalmente, ela enumera algumas propostas para novas pesquisas na área.

Pelo fato da linguagem ser acadêmica, há muitas citações e se o nível de compreensão não estiver bom, talvez seja o caso de ler algumas das obras citadas como “O Herói de Mil Faces”, “O Poder do Mito” e “A Jornada do Escritor” e alguns conceitos de Carl Gustav Jung, antes de se aventurar no livro “Jornada do Herói” propriamente dito.

+Informações:
* Clique aqui para ler um tutorial que ensina como escrever uma história coerente utilizando a jornada do herói.

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Sobre Naldo
Jornalista e escritor.

2 Responses to A jornada do herói no jornalismo

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